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23 de agosto de 2013

Deserto

Perto de Ispaão,*
há uma ameixeira
que dá dois tipos de frutos:
as ameixas que são doces e
os espaços entre as ameixas
que são silenciosos. São estes
últimos que, ao fim da tarde,
exibem o pôr-do-sol através dos ramos.

Petar Stamboliski, Poesia 

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 36



* Província do Irão

22 de agosto de 2013

Azul

Ilustração de Vladimir Kryloff


A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.


Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são deste mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,
o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal,
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., pp. 28-29

20 de agosto de 2013

No mar passa de onda em onda repetido

Ilustração de Alexandra Boiger 

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.

                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido

19 de agosto de 2013

Eu me perdi

Ilustração de Jean-Baptiste Monge

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

18 de agosto de 2013

Trepidação


Ilustração de Veronika Marosy


Saímos do comboio:
A fotografia, afinal,
não estava tremida.

Hiro Yamaguchi


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 101

16 de agosto de 2013

O que é a cultura?

Ao longo da História, a noção de cultura teve diferentes significados e matizes. Durante muitos séculos foi um conceito inseparável da religião e do conhecimento teológico; na Grécia foi marcado pela filosofia e em Roma pelo direito, enquanto no Renascimento era impregnado sobretudo pela literatura e pelas artes. 



Em épocas mais recentes como o iluminismo foram a ciência e as grandes descobertas científicas que deram a orientação principal à ideia de cultura. 

Caricaturas de escritores e escritoras por Mike Caplanis

Mas, apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de fatores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 61

14 de agosto de 2013

Arte e literatura não morrem



Caricatura de Pessoa por Tullio Pericoli


A obra literária e artística que alcança um certo grau de excelência não morre com o passar do tempo: continua a viver e a enriquecer as novas gerações e evoluindo com elas.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 69

12 de agosto de 2013

Arte e sensualidade

Ilustração de Cecile Veilhan
A arte e a sensualidade são a mesma coisa.

Picasso

citado por Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 114

11 de agosto de 2013

Ritual do amor



Ilustração de Leandro Lamas


...se quisermos que o amor físico contribua para enriquecer a vida das pessoas, libertemo-lo dos preconceitos, mas não das formas e dos rituais que o embelezam e civilizam e, em vez de o exibir à luz do dia e pelas ruas, preservemos essa privacidade e discrição que permitem que os amantes brinquem a ser deuses e sentir que o são naqueles instantes intensos e únicos da paixão e do desejo partilhados.



Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.111

A um jovem poeta



Ilustração de Arianna Russo
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 59

10 de agosto de 2013

Imortalidade

Desenho de Júlio Pomar





Há dois tipos de pessoas no mundo: 


as que acreditam que Pessoa morreu 

e as que o leram ainda no outro dia.

L. Ventura



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 64

Einstein estava errado

Ilustração de Vladymyr Lukash

Einstein está cada vez mais errado. Isto não é um contínuo espaço/tempo. É um contínuo falta-de-espaço/falta-de-tempo.


Lukasz Szczepanski

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

8 de agosto de 2013

Evolução da sociedade

Ilustração de Vladymyr Lukash


Chama-se 
evolução
da sociedade
ao tempo que
se leva a concordar
com os artistas 
do século passado.

Tsilia Kacev, Exposição em Paris, 1979



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 49

7 de agosto de 2013

Viver e estar vivo

Ilustração de Liu-Qiming


Todos os que vivem
morrem, 
mas nem todos 
os que morrem
viveram.

Kláta Sors



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 105

6 de agosto de 2013

Escultura

Ilustração de Vanessa Cooper


O homem é como a pedra
dum escultor.
Quem diria que, desbastada,
se encontraria lá dentro
uma obra-prima?
Dentro do homem,
quem diria que poderíamos
encontrar Deus?

Fragmento Anónimo, século I depois da Hégira



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

5 de agosto de 2013

Poliopsia



Ilustrações de Vladimir Kryloff

Existe uma doença oftálmica chamada poliopsia. Consiste em ver várias imagens dum mesmo objecto. Quando a poliopsia ataca o cérebro, chamamos-lhe sabedoria: consiste em ver o mesmo objecto, mas de perspectivas diferentes, como se fosse visto por várias pessoas.

Tsilia Kacev, frase que adorna a obra "Mesa", citado por Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 79

Berlinde

Ilustração de Kaatje Vermeire
No futuro
iremos passar durante
um minuto todos os dias,
interromper o que estivermos
a fazer, de repente, a meio
de uma palavra, de uma passada,                                    
de uma garfada. E, perfeitamente
imóveis, veremos que o mundo
é uma cruz para quem o carrega
e um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.

(Petar Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 24

Arte de ladrões

Ilustração de Shiori Matsumoto


...a literatura é uma arte

escura de ladrões que roubam a ladrões


Manuel António Pina,  "Emet" in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 72

4 de agosto de 2013

Primeiro domingo

Ilustração de Lily Greenwood

A tarde estava errada, 

não era dali, era de outro domingo,

quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 49

3 de agosto de 2013

Avarento

Ilustração de Ryszard Chmiel

O avarento segue o caminho das trevas só para não ter de apagar a luz.
 
Malgorzata Zajac
 
 
Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 19

O velho abutre

Ilustração de Jean-Baptiste  Monge

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

1 de agosto de 2013

Somos assim...



Ilustração de Cosei Kawa


Lili  Sou muito incompleta, pois, pois. Como um frasco destapado. É assim.


             Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.50

Um olhar sobre a rua

Ilustração de Elisabetta Decontardi




Senhora de fato   Mas tem coisas boas, não tem? 

Lili   O quê?

Senhora de fato   Viver na rua. As pessoas preocupam-se com as coisas essenciais, com comer e dormir, em vez de andarem a pensar em sapatos italianos.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.53

31 de julho de 2013

O cultivo de flores de plástico

Ilustração de John Blake

Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico e o próprio plástico por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, pp.53-54

O lado de fora



Ilustração de Catrin Welz-Stein
Eu não procuro nada em ti, 
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 44

30 de julho de 2013

Fotografia de Camille Claudel no hospício


Ilustração de May Ann Licudine

Os olhos perdidos num pedaço de parede, procura
um outro ponto em que os fixar: e volta-os 
para dentro de si, onde outras pessoas arruinadas
a impedem de ver o que está do outro lado, para
além do campo e do céu. Mas se erguesse os olhos
para o tecto, de estuque aberto para as telhas, fios
de luz dar-lhe-iam um vislumbre do mundo a que
não pode aceder, e bastar-lhe-ia um pouco de
sonho para encontrar esse vazio a que aspira,
ou apenas o último ângulo entre infinito
e eternidade. Porém, o rosto não se desvia, e
as mãos pousadas no casaco esburacado pela
traça tremem, como se procurasse moldar um
corpo antigo com o barro seco da ausência.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

29 de julho de 2013

Na biblioteca

Ilustração de Afonso Cruz


O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,


quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 37

28 de julho de 2013

O amor

Ilustração de Katsuo

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

                             

                                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

26 de julho de 2013

A solidão

Ilustração de Katsuo


A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis

Eu te procuro.


                                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

Espera

Ilustração de Katsuo


Deito-me tarde 
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho 
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa 


É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

25 de julho de 2013

A noite e a casa


Ilustração de Katsuo


A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

23 de julho de 2013

Tempo

Ilustração de Vladimir Kryloff

Tempo
Tempo sem amor e sem demora
Que de mim me despe pelos caminhos fora

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

22 de julho de 2013

Paul Celan, antes de atravessar a ponte Mirabeau

Ilustração de Mike Worrall

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho 
cobertor. Então, o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas 
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 69

21 de julho de 2013

Entre fotografia e poema


Ilustração de Sonia Maria Luce Possentini


Neste esboço há aquele segmento
do teu rosto, quase a preto e branco, que sai da sombra
do táxi; mas faltam as mãos (e sem elas o retrato
não fica completo). Na realidade, o corpo
parece fragmentado quando o capturamos
de surpresa, sem saber o que irá
surgir depois do flash. E poderia
desenhar-se um cenário puramente abstracto,
com um fundo de azulejo a dar um tom
clássico à imagem, ou apenas o branco da parede,
e neste caso haveria uma contraluz que só deixaria
à vista o teu perfil. Porém, quando olho
o teu retrato, vejo nele
uma presença que posso sentir, e me fala
como se estivesses comigo, fazendo-me
ouvir a cor da tua voz. E é como se saísses de dentro
desta imagem que é pura forma, instante
que a palavra reduz à sua duração, gesto
imóvel num desvio do olhar
para o poema.

                                     Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 43

20 de julho de 2013

Manhã

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro                         

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro


Sophia de Mello Breyner, Andresen, in Livro Sexto

19 de julho de 2013

Mãos

Ilustração de Kristina Swarner

Côncavas de ter

Longas de desejo

Frescas de abandono

Consumidas de espanto

Inquietas de tocar e não prender.


                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética
                               
                               Caminho, 2011, 2ª ed., p. 242

18 de julho de 2013

O desejo

Ilustração de Mariana Kalacheva

O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

17 de julho de 2013

Há dias

Ilustração de Laimonas Smergelis


Há dias em que julgamos 
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois 
ao chegarmos à varanda avistamos 
as crianças correndo no molhe 
enquanto cantam. 
Não lhes sei o nome. Uma 
ou outra parece-se comigo. 
Quero eu dizer: com o que fui 
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça, 
ou da alegria. 
Um sorriso abre-se então 
num verão antigo. 
E dura, dura ainda. 


                        Eugénio de Andrade, in Os lugares de Lume

16 de julho de 2013

Amigo

Ilustração de Mariana Kalacheva

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo.

Amigo
é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,    
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não
o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo
é a solidão derrotada!


Amigo
é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!



Alexandre O'Neill

14 de julho de 2013

Até ao fim

Ilustração de Iraville Deviantart


Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.



Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 25


Eterno e efémero


Ilustração de Maria Wernicke



Tudo morre, mesmo o eterno. O que dizer do efémero?



Eduardo Lourenço, "Prefácio à edição portuguesa" in 

Christiane Zschirnt, Livros - Tudo o que é preciso ler, Casa das Letras