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12 de abril de 2012

Escuto


Ilustração de Violetno
Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

  Sophia de Mello Breyner Andresen

Rapariga descalça

Ilustração de Mariana Kalacheva
Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem.
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga – os seus formosos pés –
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.

Eugénio de Andrade

Descalça vai para a fonte


Ilustração de David Galchutt


Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.


Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.




Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
                                                                                                                          
                                                                  
                                                                                 Luís de Camões