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27 de março de 2014

Branco sobre branco

Ilustração de Debi Hubbs

O Branco sobre o branco.
As ovelhas na neve
Não se distinguem.
Tal como as nossas palavras mais exactas
Sobre o papel.

Giánnis Ritsos

26 de março de 2014

Primaverar


Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos.




Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos. 

Fotos de autor desconhecido

Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou não seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha?


José Tolentino Mendonça, in Revista Expresso, 22.3.2014

Meio da vida


Ilustração de Becky Kelly


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida



Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.408

24 de março de 2014

Quando eu nasci



 
Ilustração de Nancy-Ribard
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.                   

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama in Serra-Mãe, 1945

21 de março de 2014

A primavera a zumbir

Ilustração de Lee Misook


A primavera a zumbir

com os seus olhos azuis de papoila:

novas e belas vestes de Deus 


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 94

19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

Tudo é efémero

Ilustração de Ulrike Baier


Tudo é efémero:

ontem escutava a tua voz

hoje só o vento



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge

Assírio&Alvim, 2013, p. 142

18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



17 de março de 2014

Olho-te e não me vês

Ilustração de Lucy Campbell


Olho-te e não me vês. A primavera vigia
a floração das malvas e o girassol retribui
os favores da luz. Eu sento-me onde acho

que vai estar a tua sombra. E, como a dor
que persegue a ferida, vejo-te quando passas,
mas vejo-te melhor quando não passas. Tu

não me vês; caminhas na geometria vã de
uma linha sem pontos; às vezes parece que
alguma coisa te detém e viras-te - talvez
então me chames dentro de ti, talvez até
me olhes. Mas não me vês.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 165

15 de março de 2014

Que é das palavras?

Ilustração de Marie Desbons



Que é das palavras? Como chamar

por quem as esconde se, sem elas,

nem o silêncio tem nome?


Maria do Rosário Pedreirain Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 144

13 de março de 2014

Brotavam flores

 
Ilustração de Lucy Campbell
 
O problema era que a chuva desarranjava tudo e nas máquinas mais áridas brotavam flores entre as engrenagens se não fossem oleadas todos os três dias, enferrujavam os fios dos brocados e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera era tão húmida que os peixes teriam podido entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando pelo ar das divisões da casa.

Gabriel García Márquez, in Cem anos de solidão, D. Quixote, 2009, 26ªed., p. 320

11 de março de 2014

Verdes são os campos (2)

Ilustração de Joan Louis                                                                                                                           




10 de março de 2014

Verdes são os campos (1)

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Ilustração de Olga Kvasha

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões


9 de março de 2014

Há palavras que nos beijam

Ilustração de Mariano Diaz Prieto

Manhã

 
Ilustração de Dennis Wojtkiewicz



Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.




Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 392

8 de março de 2014

Escrita do poema


 
Ilustração de Catherine Zarip


A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 523

7 de março de 2014

Em poucas linhas de papel


Ilustração de Luís Silva

Em poucas linhas de papel

o voo do génio infinito. 




Em poucas linhas de papel

todos os limites ultrapassados.   




Em poucas linhas de papel

a conquista universal do pensamento.       




Em todas as linhas de papel

sempre o génio encarcerado.


               
         Teobaldo Virgínio, poeta cabo-verdiano