Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta poema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poema. Mostrar todas as mensagens

8 de maio de 2020

O que vale um poeta


Ilustração de Tulio Pericoli
(caricatura de Fernando Pessoa)

O poeta vale aquilo que vale o melhor dos seus poemas.

Fernando Pessoa

15 de abril de 2020

Um poema

Ilustração de Shirin Sahba


Não tenhas medo
Ouve
É um poema
Um misto de oração e de feitiço
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente
De coração lavado
Poderás decorá-lo e rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz
E pode acontecer
Que te dê paz!

Miguel Torga

8 de abril de 2016

Rua de nenhures


il. Anuska Allepuz


Cantas. Não sei bem onde,
mas atravessas as paredes da casa
e do coração. O amor indetectado
lança notas da música da terra
–  não a das estrelas, que não há

Cantas. E o universo é uno,
é uno neste verso. 


Pedro Tamen

3 de abril de 2016

Abro-te a porta do poema


 
il. Lorena Pugh

Abro-te a porta do poema; e tu
espreitas para dentro da estrofe, onde
um espelho te espera.

Nuno Júdice

17 de janeiro de 2016

Os poetas

 
Ilustração de Nicoletta Ceccoli



...os poetas são melhores a inventar
do que a viver



José Jorge Letria, in "Poema para uma mãe que parte"

4 de janeiro de 2016

O que lá não está


 
Ilustração de Ian Dale
O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai uma coisa que lá não está. 
(...) 
- Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é apenas essa própria rosa.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente" in Contos Exemplares, 
Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 155

13 de outubro de 2015

Dedicatória



Ilustração de Kristian Adam
Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram numa antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.

No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.

Ilustração de Mrzyk Moriceau

Sacrifico ao rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.

Ilustração de Necdet Yilmaz
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 26

 

Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram num antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.
No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.
Sacrifico au rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa. - See more at: http://indigohorizonte.blogspot.pt/2013/11/dedicatoria-nuno-judice.html#sthash.7reqRlWT.dpuf

19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94

2 de julho de 2015

Muda de vida ou muda de poema

Ilustração de Dinara Mirtalipova
Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço.
A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar.
E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor.
O que é a fita métrica comparada com algo intenso?
Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa.  
Muda de vida ou, claro, muda de poema.

Gonçalo M. Tavares, in A Perna Esquerda de Paris

21 de outubro de 2014

Arquitecto

Ilustração de Regina Lukk-Toompere 

Depois da arquitectura


           
                Deslocou-se para o invulgar:



fundou um poema


        
Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 82

11 de maio de 2014

Como afastar os fantasmas?





O poema, esse sim, tinha o poder de lixiviar todos os fantasmas.

Miguel Miranda, in Todas as cores do vento, Porto Editora, 2012, 1ª ed., p. 14

19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



8 de março de 2014

Escrita do poema


 
Ilustração de Catherine Zarip


A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 523

4 de janeiro de 2014

Proposta

Ilustração de Luís Silva

Há um certo traço de exactidão
nos adjectivos que procuro com
o aparo da palavra. A tinta fixa
o perfil do rosto com um som
de vogais mais claras, e é como se
ouvisse o riso que se solta da
boca ao ouvir a expressão desta
ideia. Mas também uso a régua
do verso para que a imagem fique
a direito na página, e nenhum risco
perturbe o desenho. O papel está
no fim, o edifício, o poema, ou
esse objecto artesanal que sai
perfeito das mãos do oleiro, é
afiado pela consciência de
que só o que é exacto sobrevive
no ouvido e canta, com a lentidão
com que se faz o amor, a concepção
da beleza que aqui permanece.


  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 80

3 de janeiro de 2014

A manhã do poema

Ilustração de Marie Cardouat 


Nasceu de uma colheita de espumas azuis, e 
encho a cesta do horizonte com as espigas maduras
do seu coral submerso. Como as asas decepadas
das grandes aves que se ferem numa combustão
de nuvens, as palavras caem no chão da estrofe
para que as separe, e junte as que conservaram
o sopro húmido da tua voz ao som das foices
que avançam contra o sol, desbastando a folhagem
da memória. Em vez de correr contra o tempo,
separo de entre esses ramos de imagens aquelas que
me ditaram os versos mais obscuros, a luz
de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,
e um reflexo de madrugada na face liberta
de uma lenta sombra. E carrego essa cesta
como se regressasse de uma vindima de emoções,
seguindo o ritmo da frase que se escreve
na interrupção das vagas, e o vento derramou
no ouvido dos amantes.


                       Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 72