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19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

31 de janeiro de 2014

Primeiro dia de primavera

Ilustração de Sun Haeng Heo



Primeiro dia de primavera:
que distante me parece
o inverno

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 57

22 de novembro de 2013

Frio

Ilustração de Gobugi Paper

Aquele dia era um casaco aberto ao frio.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010,p. 75

21 de maio de 2013

O que é a vida?

Ilustração de Gentiane Magnan

O poeta grego que comparou o homem às folhas que não duram,
quando o inverno lhes roubou a esperança de viver de acordo com
os seus desejos, não saiu esta tarde para o campo, nem viu o
corpo que se interpôs entre o sol e os arbustos, ofuscando
o céu com a sua brancura de nuvem primaveril. Perguntou,
no entanto, de que serve a vida, e para que serve a alegria,
se não existe, para além delas, o horizonte dourado do amor;
e afastou da sua frente o crepúsculo, dizendo que preferia
a madrugada, logo que o galo canta, para despertar com
o próprio dia. Esse poeta, que o pó dos séculos sepultou,
e não chegou a encontrar qualquer resposta para as suas
dúvidas, aconselhou os que o liam a que se divertissem,
antes que a morte os surpreendesse. E lembro-me, por
vezes, deste pedido, ao pensar que a memória de alguém
se pode limitar a uma pequena frase, nem que seja a mais
banal das sentenças, que nos vem à cabeça numa ou noutra
circunstância. Então, o poeta grego continua vivo; e esta
tarde, por trás dos arbustos, ouvi a sua voz no vento que
por instantes soprou, trazendo com a sua frescura o sentimento
que sobrevive a todas as estações de uma vida humana.

Nuno Júdice, in As Coisas Mais Simples,D. Quixote, 2ªed., p. 67

1 de janeiro de 2013

A prima

O Inverno tem os seus prazeres; e por vezes, ao domingo, 
Quando um raio de sol doura a terra branca,
Saímos para passear com uma prima...
E não nos deixem à espera para jantar,

Diz a mãe. E depois de observarmos atentamente, nas Tulherias,
Sob as árvores negras os enfeites em flor,
A rapariga tem frio...e o nevoeiro começa
a levantar-se.

Doisneau, Les Tuileries en hiver

E regressamos, falando do belo dia que, lamentamos
Tão depressa ter passado...e com tão discreta chama:
E sentimos ao entrar, com grande apetite,
Do fundo das escadas, - o cheiro do peru assado.

Gérard de Nerval, in 101 Noites de Natal

20 de novembro de 2012

Resiliência

Ilustração de Akzhana Abdalieva





Ontem sobrevivi a uma noite de inverno, depois de um dia que teve o ritmo do conflito __________, do encontro __________, e da espera.


Gabriela Llansol, in O Raio sobre o Lápis

18 de novembro de 2012

Improviso




Uma rosa depois da neve.

Não sei que fazer


Ilustração de Garance Doré
duma rosa no inverno.

Se não for para arder,

ser rosa no inverno de que serve?


Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

25 de outubro de 2012

Paisagens de inverno II

Ilustração de Lucio Lopez Cansuet-Kansuet

Passou o Outono já, já torna o frio... 
– Outono de seu riso magoado. 
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado... 
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio, 
Fugindo sob o meu olhar cansado, 
Para onde me levais meu vão cuidado? 
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando, 
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias? 
– E, refractadas, longamente ondeando, 
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha, "Paisagens de inverno II", in Clepsidra