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10 de outubro de 2015

Tempo instável

Ilustração de Lucy Campbell

Logo a seguir ao almoço começa a chover. É
uma sequência que não tem nada de lógico, e também
podia ter dito que, logo antes do almoço começou a chover. A
lógica disto é que foi depois de almoço que fui à janela
e ouvi o ruído da chuva; e quando abri a janela
a chuva caía com toda a força, isto é, com tanta força
que, na casa em frente, os lençóis pendurados a secar
escorriam água. Na realidade, a chuva que cai no outono
também traz a melancolia que atravessa as almas e as
enche de pensamentos obscuros. Ao ver esses lençóis
encharcados, pensei na cama onde estiveram, e nos corpos
que sobre eles se abraçaram, longe da chuva e da monotonia
dos cinzentos outonais. Com tudo isto, nem reparei
que a chuva deixou de cair, um pedaço de sol
despontou de entre as nuvens e os prédios, e os lençóis
ganharam vida, como se ainda sentissem o calor
desses corpos que o amor juntou.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 80

25 de outubro de 2012

Paisagens de inverno II

Ilustração de Lucio Lopez Cansuet-Kansuet

Passou o Outono já, já torna o frio... 
– Outono de seu riso magoado. 
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado... 
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio, 
Fugindo sob o meu olhar cansado, 
Para onde me levais meu vão cuidado? 
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando, 
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias? 
– E, refractadas, longamente ondeando, 
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha, "Paisagens de inverno II", in Clepsidra

2 de outubro de 2012

Lugares do outono

Ilustração de Alexander Grishkevich

Outono, labirinto de silvas,
de sílabas, digo: pupila lenta,
rio de inumeráveis águas
e de amieiros onde canta
a derradeira luz das cigarras,
de vidro ainda, e leve, e branca.


Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

1 de outubro de 2012

Outubro: o vinho



Poucas vezes o outono se demorou
tanto nestas águas
sem as cobrir de névoa.
Dos montes desce
o vinho - não tardará nas ruas:
só ele é novo ainda, só
ele dança. Tu e eu
Ilustração de Mihai Criste
vamos com as folhas, as últimas 
aves: tão leve
o que deixamos por herança.

Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer