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13 de outubro de 2015

Dedicatória



Ilustração de Kristian Adam
Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram numa antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.

No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.

Ilustração de Mrzyk Moriceau

Sacrifico ao rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.

Ilustração de Necdet Yilmaz
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 26

 

Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram num antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.
No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.
Sacrifico au rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa. - See more at: http://indigohorizonte.blogspot.pt/2013/11/dedicatoria-nuno-judice.html#sthash.7reqRlWT.dpuf

10 de outubro de 2015

Tempo instável

Ilustração de Lucy Campbell

Logo a seguir ao almoço começa a chover. É
uma sequência que não tem nada de lógico, e também
podia ter dito que, logo antes do almoço começou a chover. A
lógica disto é que foi depois de almoço que fui à janela
e ouvi o ruído da chuva; e quando abri a janela
a chuva caía com toda a força, isto é, com tanta força
que, na casa em frente, os lençóis pendurados a secar
escorriam água. Na realidade, a chuva que cai no outono
também traz a melancolia que atravessa as almas e as
enche de pensamentos obscuros. Ao ver esses lençóis
encharcados, pensei na cama onde estiveram, e nos corpos
que sobre eles se abraçaram, longe da chuva e da monotonia
dos cinzentos outonais. Com tudo isto, nem reparei
que a chuva deixou de cair, um pedaço de sol
despontou de entre as nuvens e os prédios, e os lençóis
ganharam vida, como se ainda sentissem o calor
desses corpos que o amor juntou.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 80

30 de julho de 2013

Fotografia de Camille Claudel no hospício


Ilustração de May Ann Licudine

Os olhos perdidos num pedaço de parede, procura
um outro ponto em que os fixar: e volta-os 
para dentro de si, onde outras pessoas arruinadas
a impedem de ver o que está do outro lado, para
além do campo e do céu. Mas se erguesse os olhos
para o tecto, de estuque aberto para as telhas, fios
de luz dar-lhe-iam um vislumbre do mundo a que
não pode aceder, e bastar-lhe-ia um pouco de
sonho para encontrar esse vazio a que aspira,
ou apenas o último ângulo entre infinito
e eternidade. Porém, o rosto não se desvia, e
as mãos pousadas no casaco esburacado pela
traça tremem, como se procurasse moldar um
corpo antigo com o barro seco da ausência.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

22 de julho de 2013

Paul Celan, antes de atravessar a ponte Mirabeau

Ilustração de Mike Worrall

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho 
cobertor. Então, o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas 
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 69

21 de julho de 2013

Entre fotografia e poema


Ilustração de Sonia Maria Luce Possentini


Neste esboço há aquele segmento
do teu rosto, quase a preto e branco, que sai da sombra
do táxi; mas faltam as mãos (e sem elas o retrato
não fica completo). Na realidade, o corpo
parece fragmentado quando o capturamos
de surpresa, sem saber o que irá
surgir depois do flash. E poderia
desenhar-se um cenário puramente abstracto,
com um fundo de azulejo a dar um tom
clássico à imagem, ou apenas o branco da parede,
e neste caso haveria uma contraluz que só deixaria
à vista o teu perfil. Porém, quando olho
o teu retrato, vejo nele
uma presença que posso sentir, e me fala
como se estivesses comigo, fazendo-me
ouvir a cor da tua voz. E é como se saísses de dentro
desta imagem que é pura forma, instante
que a palavra reduz à sua duração, gesto
imóvel num desvio do olhar
para o poema.

                                     Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 43

14 de abril de 2013

Às vezes

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim...

Ilustração de Makoto Muramatsu

...A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos 
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável 

13 de abril de 2013

Um conceito inexprimível

Ilustração de Yoon Jae Lee
...se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio?

Nuno Júdice, "Um conceito inexprimível", 

in Fórmulas de uma luz inexplicável

23 de agosto de 2012

Sobre a mudança

Ilustração de Limeunhee
Talvez se tivesse dito, ao vê-la, que nada
poderia destruir a sua beleza. Nem vénus a perdeu, quando
lhe partiram os braços, ou de quantas outras estátuas
não restaram senão fragmentos, e ainda é possível
sonhar o todo a partir da parte. Mas pouco importa o que
se diz: a beleza, apesar daquilo que o tempo fez
ao corpo, pertence-lhe, e basta um breve olhar,
o gesto que repete o movimento de outrora,
a suave inflexão de uma frase, para trazer de volta
tudo o que parecia desaparecido. Por isso,
quando me cruzo com as mulheres que parecem
perdidas, num cruzamento, à espera de poderem
passar para o outro lado, ou quando as vejo
numa indecisão de pedir alguma coisa ao empregado
que se aproxima, com a carteira ao colo,
apago as sombras que as rodeiam, e devolvo-lhes
a luz de uma longínqua adolescência, o brilho
de rostos em que o amor ainda vivia, e um sorriso
a nascer no canto dos lábios, dissipando
a amargura do presente.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

22 de agosto de 2012

Manual do viajante


Ilustração de Catherine Samuel
Deixe que o conduzam pela berma do passeio, sem
tirar os pés dessa faixa mais larga entre a calçada e o alcatrão.
Faça com que os carros se desviem, à sua passagem, e
não tire os olhos do chão, como se andasse à procura
de moedas. Sim, à direita fica o muro do jardim, a igreja
lá para trás, talvez seja uma catedral, com os seus vitrais.
Mais à frente pode estar um museu, mas não se
preocupe e ande sempre em frente, seguindo essa linha de
separação entre o passeio e a estrada. Por vezes, sentirá a sombra
de uma árvore rara, cujas folhas são únicas no país.
Talvez sinta o seu perfume que, dizem os botânicos, enfurece
as fêmeas e desperta os machos. Mas nem isso o deverá
desviar. À esquerda, uma bela paisagem: o rio a transformar-se
em mar. Que importa se o chão continua ao longo da estrada,
e já tem carros a apitar para que se desvie, agora que vai
sair da cidade. Mas o seu destino ainda está longe, e
quando a tarde começa a cair não sabe se o irá alcançar.
Se houvesse um banco, poderia sentar-se; e ali está um,
ao lado do caminho, mas passou por ele e nem o viu. É
possível, diria o vagabundo que o viu passar, que fosse
esse o seu destino. Sentar-se-ia ao seu lado, pedir-lhe-ia
lume para o cigarro, sem se lembrar que há muito deixou
de fumar, e falar-lhe-ia na sua língua, que ele não
percebe, revelando o que há muito procura, enquanto a noite
cai e o caminho de volta se fecha.   

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável



19 de agosto de 2012

A pressão dos mercados



Ilustração de Paulo Galindro

Emprestem-me as palavras do poema; ou dêem-me
sílabas ao desbarato, para que as ponha a render 
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?


É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.

E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? Que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba - o ar -
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

14 de agosto de 2012

Nós


Ilustração de Kalle Becker


Não há-de voltar o verão em que ouvi
cair os ramos naquele bosque de fetos
e eucaliptos; nem o pássaro que por
um instante apagou o sol voltará a

cantar antes de se perder no horizonte.

Mas voltarei a sentir o que o teu
corpo me fez sentir quando um vento
abstracto nos envolveu de luz, e
depois a sombra caiu, de novo,

com o calor seco daquela tarde.
Ilustração de Victoria Kirdy

Mudam-se os tempos, é verdade,
mas não mudamos quando o tempo
corre por entre nós com a sua lenta
música, e num abraço o perdemos

para que o tempo corra sem tempo.

Assim, os nós que o tempo desata
com os seus dedos são os nós que
nos prendem, e com os dedos do verão
os fazemos atar-nos mais ainda,
soltos nós que nesse nó nos solta a voz.

 Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

8 de julho de 2012

Miragem


Tinha-a visto na varanda, fumando um
Ilustração de Marina
cigarro, olhando para sítio nenhum, e tão
imóvel que nem se dava pelo fumo que 
envolvia o seu rosto e a transformava
em aparição que, com o cair da tarde,
se materializava em sombra. Ainda
tentei adivinhar em que direcção seguiam
os seus olhos, mas de onde eu estava
só via o rosto num esboço de perfil,
como se o corpo estivesse inacabado
sobre um suporte de nuvem. Depois,
a varanda ficou vazia, quando acabou
o cigarro, e foi como se nunca tivesse
existido, com a noite a cobrir a fachada.


Nuno Júdice, "Situação", in Fórmulas de uma luz inexplicável

7 de julho de 2012

Águas de Pessoa e Óscar Wilde

Ilustração de Gabriel Pacheco
Ilustração de Sophie Casson
...só as frases de espírito nos

dão o espírito das águas, que o pessoa detestava

porque não consumia água, e o wilde também

porque não tomava banho...

Nuno Júdice, in "De profundis"

5 de julho de 2012

A espuma do café

Ilustração de Moony Khoa Le










Quando penso na existência de deus,
preciso de um café. Porém, tal como,
ao encher a chávena, sei que o café existe
por baixo da espuma, mesmo que
o não veja, também devia acreditar
que, por trás das nuvens, existe o deus em que
não acredito porque não o consigo ver. E ao
ligar um argumento ao outro, começo a perceber que não
há qualquer razão para não acreditar em deus, tal
como não tenho nenhuma razão para não acreditar 
no café cujo calor sinto na chávena, quando a aperto
para me aquecer, enquanto a espuma se não desfaz. E
poderia se este o motivo por que, ao olhar para o céu,
devia ter a mesma sensação de quem só espera que
as nuvens passem para ver esse deus
que elas escondiam. No entanto,
a verdade que me impediu de voltar a acreditar
na existência de deus foi que tive de beber
o café já frio, depois do tempo em que esperei
que a espuma se desfizesse para acreditar
que havia café na chávena, e um deus
no céu.


Nuno Júdice, "Nova suma teológica", in Fórmulas de uma luz inexplicável

3 de julho de 2012

Mala de viagem

Começa por guardar um sonho dourado
pelo sol, por onde corra o vento mais quente; põe
sobre ele o silêncio que acompanha o desejo
dos amantes, limpando-o das sombras
do inverno; protege-os com a negra foice
do destino, de lâmina embainhada na geada
matinal, cujo brilho anuncia já o céu
Ilustração de Шлыков Геннадий- Gennady
do meio-dia. Esvazia o búzio da madrugada
do seu recheio de amor, para que se possa ouvir
o mar sem o eco nocturno dos porões. Por
cima, põe as conchas do oráculo de rosto
apagado pelo degelo das estrelas. Lembra-te
que a casa que vais deixar não pode ficar
fechada; e que a chave do sono ficou entre
os seios nus da memória. Só assim
terás um rumo, e de cada vez que chegares
a mala estará pronta para a viagem.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

2 de julho de 2012

Modelo ao ar livre

Ilustração de Quentin Gréban

Seguindo o sulco negro das consoantes
dos teus cabelos, desenho lentamente os traços do
teu rosto. O meu objectivo é recortá-lo do papel
e ver-te à transparência da página, limpando
de vogais as tuas faces. Ponho-te neste retrato
de olhos fechados, e colho dos teus lábios
as pétalas que caíram com as sílabas
do amor, para as voltar a pousar nas mãos
que me estendes. Depois, vou buscar a luz
que me falta ao fundo da tarde, e derramo-a
pelo teu corpo, vendo soltarem-se da tua pele
as gotas primaveris de um céu límpido
como a imagem que aqui vejo florescer.

 
Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

28 de junho de 2012

Cena bíblica

Ilustração de Carmen Arvizu
No meio da praia deserta, uma baleia morta. O céu
estava cinzento. As ondas rebentavam em brancas
explosões. Dois ou três pescadores, e outras tantas
crianças, andavam à volta da baleia, tapando o nariz.
Nada a fazer por ela. Mas o vento levava o cheiro
para longe, e ao aproximar-me perguntava-me se
não seria de a abrir e ver se, por acaso, não haveria
um jonas no seu ventre. O pescador mais velho
afastou-me: «E se ali estivesse alguém, o que
teria para nos dizer?» Não soube o que responder:
que mensagens de um deus antiquíssimo? Que
recordações de um tempo de guerras e desastres?
Que memórias da mulher amada, de quem não
restam ossos nem imagens? No dia seguinte,
com um tractor, a baleia foi enterrada bem fundo,
numa cova ao seu tamanho. Dizem que nenhuma
planta cresceu ali, desde então. E ainda hoje me
arrependo de não ter ouvido o apelo de jonas,

e de não o ter tirado do ventre da baleia.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável