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16 de maio de 2020

Sonho de si mesmo


Ilustração de Delphine Vaute

O universo é o sonho de si mesmo.

                
Fernando Pessoa

24 de abril de 2020

O que importa

Perguntou o Manuel:
Mamã, sabes o que é que eu às vezes penso?
Não, conta lá.

Ilustração de 陳姵含 Pei Han Chen 
Que isto onde nós estamos, o mundo, é um menino
a brincar com casas e árvores e carros
e aviões e animais
e bonecos.
A sério?
Pois é, imagina que o mundo está no quarto de um
menino e que ele está a brincar.
E depois hesitou:
Só não percebo como é que ele faz as ervas.

Ilustração de Olga Kvasha
Sim, o mais complicado são os pormenores,
pensei eu. Mas não lhe disse nada,
porque ele ainda é muito novo para se esquecer
de que as coisas pequenas
são muito importantes.

Afonso Cruz, in Paz traz paz, Companhia das Letras, 2019, p.37






23 de abril de 2020

Sonhar

Sonho muito porque quando estou a dormir
Ilustração de Станичнова Наталья
não tenho nada para fazer.
Depois de acordar,
continuo a sonhar muito porque tenho
muitas coisas para fazer.

Afonso Cruz, in Paz traz paz, Companhia das Letras, 2019, p. 35

8 de abril de 2020

Para ser grande, sê inteiro


Ilustração de Maite Garcia Lliso



Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim, em cada lago, a lua toda 
brilha porque alta vive.

Ricardo Reis


25 de março de 2020

(Part)ida

Ilustração de Gabriel Pacheco
Vou para um outro
mundo
que não tenha fim
ou uma barca a mais

Vou para um outro
dia
que não tenha sombras
ou sabor a sol

Vou para um outro
sonho
que não tenha aves
ou palmas de mãos


 Daniel Faria, in Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009

15 de janeiro de 2016

Misturados com a vida

Ilustração de April Duke  

Ninguém nos pode incomodar quando estamos quietos no lugar onde vivemos, onde sonhamos, de onde saímos para a rua misturados com a vida de todos os dias.

José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, Guerra e Paz, 2015, p. 40

12 de janeiro de 2016

A porta do sonho


 
Ilustração de Claire Mojher
 

Quando queremos sonhar, aqueles de quem gostamos são a porta que se abre para o território da vida a transformar-se.

José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, Guerra e Paz, 2015, p. 17

7 de janeiro de 2016

Assim às vezes nos sonhos

Ilustração de Hilsaca Castro


A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.

 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Homem" in Contos Exemplares, 
Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 138

31 de julho de 2015

Não sou nada


Ilustração de  Mario Rosales Arredondo



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos, in "Tabacaria"

22 de junho de 2015

Sonho e realidade

Ilustração de Alessandra Vitelli

Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. E assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que não brilham de sol ou se pisam com pés - maravilhas fluidas da imaginação.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.341

21 de maio de 2015

Os melhores momentos da vida

Ilustração de Luís Alves


Os melhores momentos da vida são aqueles em que o indivíduo compreende a sua situação na vida; esse sentimento pode intensificar-se até ao mágico, e isso sem nada que seja egoísta, sem qualquer ambição. 


Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 72

19 de maio de 2015

Sonho ou poesia?

Ilustração de Sernur Isik


Ao dizer algo de condensado sobre a realidade, aproximamo-nos já do sonho, ou antes, da poesia.

                               
                                                    Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 72


24 de março de 2015

No reino desta menina...

Ilustração de Carolee Clark

No reino desta menina [Alice, no país das maravilhas], dominado por relógios de variada descrição, o surto de um coelhinho branco, e do mecanismo de bolso que o mesmo ostentava, não deveria suscitar a menor das surpresas. Mas tratava-se na circunstância de um contador do tempo do sonho, função que requeria um apurado engenho, e de aspecto especial. O relógio do Coelho marcava horas esdrúxulas...

                                        
                                                        Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 31

31 de dezembro de 2014

Viajar! Perder países!

Ilustração de Basia Konczarek


Viajar! Perder países! 
Ser outro constantemente, 
Por a alma não ter raízes 
De viver de ver somente! 

Não pertencer nem a mim! 
Ir em frente, ir a seguir 
A ausência de ter um fim, 
E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem. 
Mas faço-o sem ter de meu 
Mais que o sonho da passagem. 
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa

18 de dezembro de 2014

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos


ILustração de Jan Kudláček

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, 
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 


Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 187 


10 de junho de 2014

Screvo meu livro à beira mágoa

Ilustração de Danuta Wojciechwska

Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Fernando Pessoa, in Mensagem

12 de fevereiro de 2014

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

Ilustração de Carlotta Castelnovi

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


       Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.97

28 de dezembro de 2013

Inventar o sonho

Ilustração de João Nasi Pereira

Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.


Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 16

25 de agosto de 2013

Luz

Ilustração de Akira Kusaka

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 48

22 de julho de 2013

Paul Celan, antes de atravessar a ponte Mirabeau

Ilustração de Mike Worrall

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho 
cobertor. Então, o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas 
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 69