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25 de março de 2016

Pai, Pai, por que me abandonaste?

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
 
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?
 
il. Vanja Todoric
 
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.


Sophia de Mello Breyner,"O Homem" in Contos Exemplares

3 de junho de 2015

O fogo que me deixaste

Ilustração de Mamzelle Roüge

De noite, quando o frio entra pelas casas, e um resto de solidão gela o fundo da alma, aqueço-me com o fogo que me deixaste.

De manhã, recolho as suas cinzas.


Nuno Júdice, "Oito fragmentos" in O fruto da gramática, 2015, 2ª ed., p. 89 (fragmento 8) 

2 de abril de 2015

Tempo de silêncio

Ilustração de Laimonas Smergelis


Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 


Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 



Ilustração de Laimonas Smergelis

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Data (à maneira d'Eustace Deschamps" in Livro Sexto

26 de março de 2015

Sacode as nuvens

Ilustração de Nina Chen

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, 
Sacode as aves que te levam o olhar. 
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 

Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I

18 de dezembro de 2014

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos


ILustração de Jan Kudláček

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, 
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 


Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 187 


6 de dezembro de 2014

A experiência do amor


Ilustração de Aaron Ayumi Piland 


Não é a culpa ou a autoflagelação que nos converte. Transforma-nos, sim, a experiência do amor (...). É no confronto com esse amor que mudamos. E por isso a única solidão na qual podemos confiar é a solidão que nos encaminha devagarinho para uma fonte.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 109

5 de dezembro de 2013

A perversão de Narciso

Ilustração de Sophie Leta



Decidira que o amor fazia parte da vida,
ao contrário do que pensara. Olhava
para o espelho e recusava o que via,
correndo para a rua em busca de outros
rostos mais belos: os da jovem que passou
à sua frente e o olhou de relance, inquieta
ao adivinhar o seu desejo; ou o dessa que
alisava os cabelos com as mãos, como se
estivesse a acariciar-se, e os seus olhos
perdiam-se na fronteira de um sonho
acordado. Queria dizer-lhes que as amava,
e que deixara para trás de si a sua imagem,
e a obsessão de se ver outro para se possuir até
à última esfera da loucura. E elas olhavam-no,
pedindo-lhe que se aproximasse. Mas
ele continuava parado como se nem sequer
as visse. Então, cansadas de esperar, partiam,
deixando-o entregue à solidão, e
ao inútil desejo de si próprio.


                          
                                 Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 33

22 de agosto de 2013

Azul

Ilustração de Vladimir Kryloff


A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.


Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são deste mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,
o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal,
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., pp. 28-29

7 de abril de 2013

O poema


Ilustrações de Kristina Swarner


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)




















Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

18 de fevereiro de 2013

De passagem

Ilustração de Danuta Wojciechowska


Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável. 


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 1" , in Entre o  céu e a terra, Documenta, 2012

10 de fevereiro de 2013

E ele não sentia medo

Ilustração de Aki


JACOB [descrevendo como John Wolf vive a sua cegueira]


A paisagem apagava-se nos seus olhos, e ele não sentia medo. Sem ver, olhava. Era como se aceitasse a nova forma de solidão. Nada mais que o passo silencioso nos degraus que sobem em espiral. Nada mais que o rumor do seu fino bordão.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Assírio & Alvim, 2013, 1ª ed.,   Cena II, p.20

5 de janeiro de 2013

Baltasar

Ilustração de Georges Underwood
O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na água clara dos tanques o reflexo da sua cor de ébano. (...)

A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria nua, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.

E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente, in Contos Exemplares

Melchior

Ilustração de Ines Huni
 Nessa noite (...), Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela.
A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. (...)

E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria.

E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente, in Contos Exemplares

Gaspar e a justiça

Ilustração de Rosario Elizalde

...Gaspar escutava o crescer do tempo. A solidão criava em seu redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio era como a mesma palavra inumeravelmente repetida.

E debruçado sobre o tempo Gaspar pensava: "Que pode crescer dentro do tempo senão a justiça?"

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares

2 de janeiro de 2013

Silêncio e solidão

Suporta tudo, menos a solidão e o silêncio. Pode dormir muito pouco, esquecer-se da fome, enrolar uma manta nas pernas para não ter frio, ignorar que o sexo existe, aceitar não conhecer o calor feminino, mas não suporta o silêncio e a solidão.

Ilustração de Jean-Baptiste Monge


(...) Muitos dias nascem cinzentos, mas ao som do rádio e com o cheiro do café enfrenta-os. Não se desloca de carro, mas entre montões de gente nos autocarros. E aí vê tantos rostos infelizes, tantos telemóveis que não vibram emoção alguma.

Ilustração de RWD
(...) Uma solidão absoluta. Rasgou todos os poemas porque, ao reler alguns, descobriu serem todos sobre sentimentos já ausentes. Pais ausentes. Dores ausentes. Sonhos ausentes.

Paulo Bandeira Faria, in Um Natal assim, Quidnovi


26 de julho de 2012

Eis-me

Ilustração de Cecilia Pucci
 
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto