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25 de julho de 2014

Coral

Ilustração de Roz Art
Ia e vinha

E a cada coisa perguntava

Que nome tinha.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 207


6 de julho de 2014

Varandas






Ilustração de Elisabetta Trevisan

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste – quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha



Ilustração de Elisabetta Trevisan


Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade


Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Búzio de Cós", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 820


5 de julho de 2014

Deus é no dia

Ilustração de 孟楠楠

Deus é no dia uma palavra calma

Um sopro de amplidão e de lisura.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 361

4 de julho de 2014

A paz sem vencedores e sem vencidos



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, por Maria Barroso, no dia da trasladação da poeta para o Panteão Nacional. Publicado por Pastoral da Cultura.


3 de julho de 2014

É o teu rosto ainda que eu procuro

Ilustração de Irene Jones

É o teu rosto ainda que eu procuro


Através do terror e da distância


Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 308


2 de julho de 2014

Harpa

Ilustração de Aimee Sicuro

A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa

E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e outros poemas 

in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 823

Chamo-Te

Ilustração de Elisabetta Trevisan
Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 201

4 de fevereiro de 2014

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Ilustração de Satoshi Ota


Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

5 de janeiro de 2014

A estrela

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Ilustração de Eva Vásquez
Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
“Minha pureza me cerca e me rodeia”
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava


Ilustração de Jan Pashley

E assim eles disseram: “Vem connosco
se também vens seguindo aquela estrela”
Então soube que a estrela que eu seguia
era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado


Ilustração de Jan Pashley

Nesse lugar pensei: “Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
que morava entre os homens e tão perto”


Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto II A Estrela, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 405

2 de janeiro de 2014

Tecer bailados


Ilustração de Marie Cardouat 

Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner, Dia do Mar IV, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 120

1 de janeiro de 2014

As flores

Ilustração de Marie Cardouat

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No tempo dividido, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 293

31 de dezembro de 2013

Os nossos dedos abriram mãos fechadas

Ilustrações de Jan Pashley

Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.



E a cidade partiu como um navio
Através da noite.

Sophia de Mello Breyner, Coral, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 172

7 de abril de 2013

O poema


Ilustrações de Kristina Swarner


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)




















Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

31 de março de 2013

Reconheci tua presença

Ilustração de Laimonas Smergelis


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade", in Livro Sexto 

30 de março de 2013

Caminho para a Páscoa


Ilustração de Laimonas Smergelis

Sozinha caminhei no labirinto


Aproximei meu rosto do silêncio e da treva 

Para buscar a luz dum dia limpo

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Labirinto" in Livro Sexto

29 de março de 2013

Eis-me

Ilustração de Laimonas Smergelis


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto 

5 de março de 2013

Mar sonoro


Ilustração de Quentin Gréban



Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho,

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.



Sophia de Mello Breyner Andresen

2 de março de 2013



Ilustração de Jeffrey Larson


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar

1 de março de 2013

Fundo do mar

Ilustração de Ani Castillo

No fundo do mar há brancos pavores
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruídos vibram os espaços. 
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar

25 de fevereiro de 2013

Busca da essência no mundo grego

Ilustração de Alexander Bazarin
[Sophia de Melo Breyner Andresen]  realça a aliança do homem com o mundo natural, que o paradigma da arte grega celebrou. A "verdade antiga da natureza" é também a verdade dos deuses.


A civilização grega é também um modelo axiológico para Sophia. Nela procura um conjunto de valores perdidos: a inteireza, a harmonia, a justiça. "Exilámos os deuses e fomos / Exilados da nossa inteireza", escreve em O Nome das Coisas.

Clara Rocha, in Dicionário de Literatura Portuguesa, org. e dir. de Álvaro Manuel Machado