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12 de abril de 2020

Conto de fadas

Ilustração de Tititi 

Era uma vez um conto de fadas. Estávamos
na terra do sonho; o castelo tinha torres
que chegavam à lua; e a noite quente do verão
entrava pelas janelas e tapava-nos
num aconchego de mãe. Neste sonho, não havia
ogres nem lobos maus; e um barco
branco esperava por nós, no porto da cidade,
para nos levar para o oriente onde o sol
nunca se põe. Nenhum de nós queria acordar
para não se esquecer deste sonho; e mesmo que
acordássemos, não iríamos abrir os olhos,
para não ver o que nos esperava, ao sair
do casulo dos sonhos. Mas, se acordássemos,
e abríssemos os olhos, e víssemos que tínhamos
saído da noite para entrar no dia, que já não é
um conto de fadas, podíamos dizer uns 
aos outros: "Este é o sonho de onde temos
de acordar, para voltar ao conto de fadas
onde a noite nunca se põe."

Nuno Júdice, in A matéria do poema

6 de junho de 2015

Conversa nocturna

Talvez a noite me encontre um dia. Sentar-me-ei com ela, a conversar. 

Ilustrações de Pinwheel Bunny 

Perguntar-me-á: "Quem és?" - "Um dos habitantes", responderei; mas sem ter a certeza disso. Entre a noite e o dia, quem pode escolher, ao certo, o seu lugar? E ela há-de insistir, adivinhando a minha dúvida. Então, aproximar-me-ei dela, pegarei nas suas mãos de treva, e puxá-la-ei para mim. "E tu, quem és?" E ela ficará em silêncio, pesada e nocturna, como se a morte fosse a sua segunda natureza. 



"Amo-te", digo-lhe. E a noite dissolver-se-á em mim, até nascer o dia.


                                                        Nuno Júdice, in O fruto da gramática, 2015, 2ª ed., p. 55

22 de março de 2015

Poema a uma noite

Ilustração de Ellie Horie


Empurro a noite para o lado, tiro-a da minha
frente, e ela insiste em não sair; mas encosto-a
contra a parede, e a noite começa a desaparecer,
sugada pelo branco da cal, até nada ficar dela senão
um fantasma de lua no azul deste céu que
ocupa todo o espaço sobre a minha cabeça, e
cujo peso me empurra para o chão. Tento
levantar-me; mas os meus braços não resistem
ao peso do azul, e dobram-se, enquanto a terra
se abre para me oferecer o seu refúgio. Porém,
que irei eu fazer no interior da terra, por entre
vermes e raízes? E deslizo entre o céu e
a terra, em busca da noite que fiz desaparecer.


Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 100

19 de março de 2015

Só me satisfaz o infinito (2)

Ilustração de Aaron  Ayumi Piland


Só me satisfaz o infinito.

É um número muito grande, não é?

É, mas consegue-se domesticá-lo e fazer com que caiba numa só noite. Uma noite bem passada nunca mais acaba.


Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 22

3 de janeiro de 2015

Noite

Ilustração de Friedrich Hechelmann


Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 856

22 de outubro de 2014

O maravilhoso não escurece

Ilustração de Andy Kehoe



Quando a noite chega o maravilhoso não escurece.



Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 192

12 de fevereiro de 2014

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

Ilustração de Carlotta Castelnovi

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


       Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.97

9 de fevereiro de 2014

Nada temas...

Ilustração de Mihai Criste

(...)

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que 
adormeceres. Mas nada temas (...)


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.121

31 de dezembro de 2013

Os nossos dedos abriram mãos fechadas

Ilustrações de Jan Pashley

Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.



E a cidade partiu como um navio
Através da noite.

Sophia de Mello Breyner, Coral, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 172

28 de julho de 2013

O amor

Ilustração de Katsuo

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

                             

                                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

26 de julho de 2013

A solidão

Ilustração de Katsuo


A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis

Eu te procuro.


                                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

Espera

Ilustração de Katsuo


Deito-me tarde 
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho 
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa 


É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

25 de julho de 2013

A noite e a casa


Ilustração de Katsuo


A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

22 de julho de 2013

Paul Celan, antes de atravessar a ponte Mirabeau

Ilustração de Mike Worrall

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho 
cobertor. Então, o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas 
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 69

18 de maio de 2013

Noite e dia

Ilustração de Kim Amate

E então a noite caiu, para que não se falasse
do cair da noite. A noite caiu tão fria como as
últimas noites que caíram, neste princípio de
Inverno, e ninguém pôs um colchão por baixo
dela para que a noite não se magoasse, ao cair.
A noite limitou-se a cair, e com ela caiu o céu
sem lua, com todas as estrelas do universo a
caírem com ela. Só os olhos não caíram, porque
para verem o céu e as estrelas que o enchiam
tiveram de se levantar. E foi preciso falar
do cair da noite para que os olhos tomassem
a direcção do céu, e descobrissem tudo o que
havia no céu sem lua. «Deixem cair a noite»,
disse alguém. E logo alguém pediu que o
dia se levantasse, como se uma coisa estivesse
ligada a outra. Então, o dia levantou-se da
noite que caiu; e a noite caiu sobre o dia
que se levantava, para que a sua queda fosse
amparada pelo colchão do dia, e as estrelas
tivessem onde pousar, à medida que caíam.

Nuno Júdice, in As coisas mais simples

19 de outubro de 2012

A cidade e a noite


Foto de Lisboa é poesia
 "O Sentimento dum Ocidental" é a investigação final e definitiva de Cesário sobre a cidade. Tal como "Noite Fechada", o poema regista as percepções e impressões de um observador caminhando nas ruas nocturnas da cidade. Mas o narrador de "Noite Fechada" ia acompanhado; o narrador de "O Sentimento dum Ocidental" descreve um passeio solitário.

Helder Macedo, in Nós, uma leitura de Cesário Verde, D. Quixote, 3ª ed., p.169

22 de setembro de 2012

It's Time to Be Clear

Ilustração de Jasmin Aldin
Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma árvore
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve

para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
a sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela 


José Tolentino Mendonça, in Estação central


21 de setembro de 2012

A Noite e o locus horrendus





Ilustrações de Libellune
A frenética e dorida expressão do desencanto, da traição e da morte (da mulher amada), oriunda da vivência do sentimento amoroso, conduz frequentemente Bocage a procurar refúgio na paisagem nocturna e mórbida. Os cenários lúgubres constituem o temporário abrigo para a frustração amorosa, expressando assim, com o auxílio de uma retórica exacerbada, a profunda sensação de melancolia. Nesta poética nocturna, merece particular destaque a presença do locus horrendus, tópico com que o poeta pretende enfatizar as colorações negras do seu desespero íntimo. Com efeito, uma das grandes características de Bocage é a sua predilecção pelos cenários nocturnos: o sujeito poético deleita-se na solidão e na imensidão dos mares tempestuosos, no escuro das florestas, no refúgio dos túmulos ou na soturnidade das trevas da noite.

 MARTINS, Cândido in Para uma leitura da poesia de Bocage, Lisboa, Ed. Presença, 1999, pp. 69-70 

20 de setembro de 2012

Cenários noturnos, tristeza profunda

Ilustração de Sam Araya


O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite feia;
Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar, em crespos montes levantado;

Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta areia;
O pássaro nocturno, que vozeia
No agoireiro cipreste além pousado.

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza. 



Bocage

18 de setembro de 2012

O universo bocagiano e o locus horrendus

 
Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

  



 Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
                                                Quero fartar o meu coração de horrores.
  

Bocage