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31 de março de 2020

Reflexões sobre o digital: o olhar

A comunicação digital é pobre em termos de olhar. Como faz notar o autor de um ensaio sobre o décimo aniversário do Skype:


Ilustrações de Jacki (Wells) Wunderlin
O videotelefone produz a ilusão de uma presença e tornou decerto mais suportável a separação entre dois amantes. Mas apercebe-se sempre a distância, que é talvez no ligeiro desfasamento do olhar que transparece mais claramente. De facto, no Skype, não é possível olharmo-nos nos olhos. Quando alguém olha no ecrã os olhos do outro, este tem a impressão de que o seu interlocutor olha ligeiramente para baixo, uma vez que a câmara se encontra instalada na parte de cima do computador. A bela qualidade peculiar do encontro imediato, em que ver-se alguém equivale sempre a ser-se visto, é substituída pela assimetria do olhar. Graças ao Skype, podemos estar próximos um do outro vinte e quatro horas por dia, mas sem nos olharmos nunca nos olhos.

Süddeutsche Zeitung Magazin, dezembro de 2013 
apud Byung-Chul Han, No Enxame - Reflexões sobre o digital
Relógio d'Água, 2016, pp. 35-36  


26 de março de 2020

Aniversário

Ilustração de Marie Desbons

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
Álvaro de Campos (excerto)




25 de março de 2020

(Part)ida

Ilustração de Gabriel Pacheco
Vou para um outro
mundo
que não tenha fim
ou uma barca a mais

Vou para um outro
dia
que não tenha sombras
ou sabor a sol

Vou para um outro
sonho
que não tenha aves
ou palmas de mãos


 Daniel Faria, in Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009

21 de março de 2020

A primavera não sabia







Poema: Irene Valla 
Locução: Ricardo Capeloa


Um poema de esperança em tempos conturbados.

Poema

Ilustração de Lisa Aisato

As coisas mais simples, ouço-as no intervalo
do vento, quando um simples bater da chuva nos
vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo
se sobrepõe ao das palavras. Por vezes, é uma
voz cansada que repete incansavelmente
o que a noite ensina a quem vive; de outras
vezes, corre, apressada, atropelando sentidos
e frases como se quisesse chegar ao fim, mais

depressa do que a madrugada. São coisas simples
como a areia que se apanha, e escorre por
entre os dedos enquanto os olhos procuram
uma linha nítida no horizonte; ou são as 
coisas que subitamente lembramos, quando
o sol emerge num breve rasgão de nuvem.
Estas são as coisas que passam quanto o vento
fica; e são elas que tentamos lembrar, como
se as tivéssemos ouvido, e o ruído da chuva nos
vidros não tivesse apagado a sua voz.

Nuno Júdice, "Poema", 
in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ªed., p.25


20 de março de 2020

A utilidade do inútil





A utilidade do inútil, reflexões sobre a importância da filosofia, da literatura, do saber na sua dimensão mais erudita, sem uma forçosa vertente pragmática, cultivando o espírito: a dignidade humana, a curiosidade intelectual, o crescimento pessoal. O conhecimento como fonte de desenvolvimento pessoal versus o utilitarismo do estudo com vista a um desempenho profissional tout court

Portefólio de Leituras

Matemática, filosofia e arte

Ilustração de Sandrine Kao

As matemáticas têm um triplo objectivo. Devem fornecer-nos um instrumento para o estudo da natureza. Mas não é tudo. Têm um objectivo filosófico e, permito-me dizê-lo, um objectivo estético. Devem ajudar o filósofo a aprofundar as noções de número, de espaço, de tempo. E os seus adeptos, sobretudo, encontram nelas um prazer análogo àquele que nos dão a pintura e a música.


Henri Pointcaré (cientista francês)


apud Nuccio Ordine, A utilidade do inútil - Manifesto
ed. Ágora, 2018, 2ª reimp., p. 122 

18 de março de 2020

Ilustração de Michael Creese

Não sei pensar sem a escrita. Ama-se como sem ela?

Ana Marques Gastão, in Lápis mínimo

A fonte

Ilustração de Noemi Villamuza
Com voz nascente a fonte nos convida
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual

16 de março de 2020

Regressarei


Ilustração de Pei Han Chen
Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas


Sophia de Mello Breyner Andresen in O nome das coisas