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10 de novembro de 2012

A delicadeza do mundo (2)

Ilustração de Mozeko
"A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas..."

Tolentino Mendonça



A delicadeza do mundo, o belo e o inefável chegam-nos pela arte, pela literatura, pelas palavras conjugadas com sabedoria e sabor inesperado  pelos poetas e escritores, pelos artistas maiores, pelos ilustradores e ensaístas.
O belo e o horrível tornam-se arte e humanizam-nos e, humanizando-nos, divinizam-nos, tornam-nos mais inefáveis, mais densos, mais perto do centro do transcendente que nos engrandece.


PORTEFÓLIO DE LEITURAS tem criado, ao longo deste 1º aniversário que hoje celebramos, um  percurso pela arte literária, divulgando escritores e ilustradores. Porque de um portefólio digital se trata, vamos nele depositando sementes dispersas de poesia e de outras formas de literariedade, já por si eloquentes. Pontualmente, uma reflexão; outras vezes textos não literários, eleitos pela densidade da sua mensagem, como, a título de exemplo, as palavras de Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006.


Ilustrações de Miyuki
São referências muito usuais os poetas Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Maria Gabriela Llansol, mas também a prosa de Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Hermann Hesse, Tonino Guerra ou Juan José Millás, a par de outros clássicos da literatura portuguesa e universal.

São leituras lidas, leituras amadas, leituras partilhadas. Pleonasticamente.
                                                                                          Maria Carla Crespo

 

A delicadeza do mundo (1)

Ilustração de Akitaka Ito



A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas
com uma faca ou uma corda
a mudar com o vento
mesmo aqui, mesmo neste instante
as paredes do mundo não são muralhas
de altura inusitada
mas escadas suaves como fumo


Pudéssemos acordar uma manhã
e descobrir na poça castanha
entre gravetos, folhas apodrecidas
e ramos
que fazemos parte da sua solidão

Tolentino Mendonça, in Estação central

Personagens de papel?

Ilustração de Fabiola Solano
As personagens convivem com o leitor e tornam-se tão reais como afirma Jacques Bonnet:

"amam, enganam, assassinam, culpam, roubam, fogem, traem, deliram, sacrificam-se, são cobardes, afundam-se na loucura, vingam-se ou acabam por suicidar-se, mas, mais uma vez, mesmo nestes actos específicos, as personagens inventadas são mais reais". Temos a certeza de que Carlos e Maria Eduarda, os amantes de Os Maias, de Eça de Queirós, viveram - sem que pelo menos um deles ignorasse completamente o que fazia - um amor incestuoso..."

Ilustração de Kike de la Rubia
Personagens fictícias e personagens reais são "farinha do mesmo saco", que povoam as nossas bibliotecas e se cruzam nas nossas vidas com igual realismo - segundo o citado especialista em bibliofilia e teoria da leitura.


Segredinhos literários



Jacques Bonnet, o bibliófilo francês que inspirou a criação deste blogue, afirma que o autor nunca nos diz tudo acerca das personagens. E exemplifica: "Em nenhum lado, na história de Moby Dick, se esclarece qual a perna do capitão Ahab que é de madeira, consequência do seu combate com a baleia (uma ignorância que, como assinalou Umberto Eco, John Huston não pôde respeitar na sua adaptação cinematográfica, ao ter de se decidir por uma em vez da outra, chegada a altura de preparar Gregory Peck para as suas cenas). Como Melville não nos explica, nós nunca o saberemos. A mesma incerteza paira sobre o pé torto de lorde Byron..."

E parodia continuamente, em Bibliotecas cheias de fantasmas, sobre o efeito máscara que o autor exerce sobre o leitor: "A arte romanesca é em grande medida a das coisas não ditas, mas há certos segredinhos que não se podem esconder dos leitores!"  



Ilustrações de Sonja Wimmer