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20 de junho de 2013

O cavalo branco

Eu andava com umas porcarias inquietantes que um sonho me tinha deixado na cabeça. Parecia que havia uma Virgem nua amarrada por baixo da barriga de um cavalo branco e eu via-a em toda a parte mesmo quando estava com os olhos dentro da água do Marecchia, tão clara nas pedras que parecia que nem existia.

(...)


Ilustração de Kristina Swarner

Quando cheguei à capela de Santa Verónica, vi que estava transformada numa cavalariça. Com um cavalo branco, idêntico àquele que eu tinha sonhado. E então? Então fugi dali para fora.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas

16 de junho de 2013

A botoeira do casaco novo

Há certas noites que os casarões de Montebotolino voam e parecem manchas cor-de-rosa por cima de um pano transparente. De inverno, se chove, ficam com os pés dentro das poças e a água desliza por eles como se fossem rochas.


O confessionário na igreja é uma barraquinha de abeto pintada de cor-de-rosa, com os carunchos a roerem até os pregos. Eu sentei-me lá dentro para ver se o padre ficava cómodo. Foi uma tarde de domingo e uma aranha baloiçava na ponta do fio que descia de um funil de seda. E adormeci.


Ilustração de Domenico Gnoli

Depois deu-me vontade de conhecer o padre, que por ser velho se tinha reformado de todas as funções e habitava no campo junto do pinhal de Ravenna. Queria que ele me dissesse qual tinha sido a sua última confissão em Montebotolino. Tinha oitenta anos e as mãos trémulas eram borboletas a levantar voo.


Ilustração de Séverine Duchesne
Sem nomear ninguém, disse que uma manhã às cinco, com os pés molhados porque tinha passado por cima da erva branca da geada, uma velha se ajoelhara logo ao confessionário.

Com a voz comovida contou-lhe que na noite da véspera de um feriado cosera a botoeira do casaco novo do marido para que ele não metesse lá uma flor para se armar em gabarola diante das outras mulheres. E agora estava arrependida.

Tonino Guerra, in O Livro das igrejas abandonadas

10 de junho de 2013

O sulco

Desde que lhe morreu o marido a Bice viu-se reduzida a falar com uma galinha.Dá-lhe de comer numa travessa sêmeas em papa e fica sentada a fazer-lhe companhia no degrau da porta de casa.

Depois a galinha vai para fora e de vez em quando pára na praça ou onde bem lhe apetece. Mais tarde a Bice vai perguntar aos rapazes se a viram passar. Todas as manhãs entram juntas na igreja onde estava pintada na parede a Nossa Senhora sentada que em mil novecentos e catorze chorara porque estava para rebentar a primeira guerra mundial. Então todas as mulheres de Rimini e Ravenna vieram rezar pelos filhos e pelos maridos que estavam em perigo.

Ilustração de Lookarna
Depois acabou a guerra e nunca mais lhe ligaram. A água gotejava do tecto e catrapás, a neve deitou tudo abaixo.

Assim a igreja caiu no abandono e a pintura pouco a pouco foi-se apagando da parede e transformando em pó. Só ficou o sulco no rego que fizeram as lágrimas de Nossa Senhora quando chorou.

A Bice põe-se de joelhos diante daquela risca e a galinha fica acocorada ao pé dela.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas 

8 de junho de 2013

Schiu!

Ilustração de Mayte Alvarado Simancas
O padre da paróquia de Montelabreve esteve bem até há quinze dias. De repente meteu-se na cama e morreu com a cabeça encostada aos dois pavões azuis pintados na parede do quarto.


À sobrinha que estava sentada ali ao pé, mesmo um segundo antes de fechar os olhos para sempre, olhou para ela e depois levou o dedo aos lábios e, baixinho como se fosse um sopro, fez: "schiu!"; em suma, dizia-lhe que estivesse calada. Calada a respeito de quê? Estaria já a ouvir outras vozes? Se calhar uma música que lhe vinha lá de cima? Ou queria que ela não dissesse que ele estava a morrer? Ou, se não, um conselho para se calar na vida em geral? Ou era ele que mandava calar-se a si próprio, com o medo que faziam as palavras que se lhe derretiam na boca?

Desse dia em diante a sobrinha compreendeu que dessas coisas não devia falar com ninguém. E de vez em quando volta a olhar para os dois pavões azuis que estão a desvanecer-se da parede.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas, Assírio & Alvim

27 de maio de 2013

A água da paróquia

Em Santarcangelo ao poço da Paróquia já não vai beber ninguém. Era a água benta que deitavam na cabeça das crianças para as baptizar e lavava as mãos de quem as metia dentro da pia.

E entretanto continuavam a andar para baixo e para cima os baldes da gente que morava ali à volta.

Ilustração de Nicolas Gouny

Depois puxava-a para cima um camponês para regar as alcachofras, até que fecharam o poço com uma chapa e na borda puseram uma placa a dizer assim: «Cá de baixo a água da Paróquia olha para o alto».


Tonino Guerra, in O Livro das Igrejas Abandonadas

26 de maio de 2013

As folhas da cerejeira

A André Tarkovsky


Por cima de Casteldeci há uma igreja sem tecto e as paredes têm entre os braços uma cerejeira que cresceu no chão e cujos ramos tocam o céu.

Em Abril floresce e a brancura desliza da árvore até ao fundo do vale, depois nascem os frutos e comem-nos os melros e os pássaros bravos; entretanto as folhas ficam vermelhas e uma de cada vez caem ao chão.

Ilustração de Rudi Hurzlmeier

Se alguém assoma àquelas paredes com o desejo de pedir um milagre e há uma folha que cai nesse momento é sinal que de lá de cima terá uma resposta boa. 

Tarkovsky passou lá em Novembro e precisava de fazer um pedido grande, mas as folhas já tinham caído todas e serviam de cama a duas ovelhas que dormiam.

Tonino Guerra, in O Livro das igrejas abandonadas

10 de novembro de 2012

A delicadeza do mundo (2)

Ilustração de Mozeko
"A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas..."

Tolentino Mendonça



A delicadeza do mundo, o belo e o inefável chegam-nos pela arte, pela literatura, pelas palavras conjugadas com sabedoria e sabor inesperado  pelos poetas e escritores, pelos artistas maiores, pelos ilustradores e ensaístas.
O belo e o horrível tornam-se arte e humanizam-nos e, humanizando-nos, divinizam-nos, tornam-nos mais inefáveis, mais densos, mais perto do centro do transcendente que nos engrandece.


PORTEFÓLIO DE LEITURAS tem criado, ao longo deste 1º aniversário que hoje celebramos, um  percurso pela arte literária, divulgando escritores e ilustradores. Porque de um portefólio digital se trata, vamos nele depositando sementes dispersas de poesia e de outras formas de literariedade, já por si eloquentes. Pontualmente, uma reflexão; outras vezes textos não literários, eleitos pela densidade da sua mensagem, como, a título de exemplo, as palavras de Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006.


Ilustrações de Miyuki
São referências muito usuais os poetas Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Maria Gabriela Llansol, mas também a prosa de Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Hermann Hesse, Tonino Guerra ou Juan José Millás, a par de outros clássicos da literatura portuguesa e universal.

São leituras lidas, leituras amadas, leituras partilhadas. Pleonasticamente.
                                                                                          Maria Carla Crespo

 

15 de setembro de 2012

O despertador

Ilustração de Yasmin Mundaca


Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma beduína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se também este desaparecer deixarei de ter um trabalho».
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vês que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

             Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

9 de setembro de 2012

A Fotografia


Ilustração de Victoria Kirdy

Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.



Tonino Guerra, in Histórias Para Uma Noite de Calmaria

8 de setembro de 2012

A Espera

Ilustração de Mariana Kalacheva


Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava.
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente, à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

28 de agosto de 2012

A bailarina russa

Ilustração de Emzar Kiknavelidze
Uma bailarina russa que tinha setenta anos e ensinava dança pelas escolas, foi seguida por um jovem, seduzido por sua figura esguia e arrebatadora.
Para não ser alcançada, correu até casa e, ofegante, fechou-se no apartamento. A filha jovem interrogou-a sobre o sucedido.
«Uma coisa extraordinária», responde a velha mãe. «Um rapaz seguiu-me e eu não quis que descobrisse meu rosto para não o desiludir com a minha idade. Vê pela janela se ainda está
no passeio».
A filha foi à janela e, sobre a estrada, depara com um velho que olhava para cima.

         Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

24 de junho de 2012

Em especial aos domingos

Ilustração de Cocci Lune


Em especial aos domingos

quando ninguém está em casa

aí por finais de Junho

subo então ao terraço

para perceber além dos muros

a cidade silenciosa.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

23 de junho de 2012

Dino

Ilustração de Emilie Vast
Tinha bigode meu irmão e dançava o tango
agora vive com quatro mil patos
que chafurdam dentro do rio
entre as canas.
Se o convido para Roma
chega com duas folhas de alface
como se fosse
um canário na gaiola.
E todas as vezes que nos vemos
mesmo quando passou mais de um ano
damos as mãos e isso basta.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

20 de junho de 2012

Junto ao fogo



Decidiu abandonar as mulheres e, por longo tempo, de facto, viveu só. Passeava, olhava as árvores e frequentava o café sem voltar o rosto para qualquer mulher bela.
Ilustração de Patricio Betteo

Mas um dia, uma jovem colocou-se a seu lado e disse-lhe que o amava. Durante muitos dias o homem recusou-a, até que a mulher deixou de vir ao café, desaparecendo sabe-se lá para onde.

Só agora, aquele tal, foi sacudido por tão grande amor que percorreu, a pé, toda a cidade, até que parou a conversar com uma daquelas mulheres que vive junto às fogueiras, na periferia. E nem reparou que era a mesma rapariga que o amava.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

1 de abril de 2012

A cerejeira em flor


Ilustração de Robert Dunn
O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.

Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite calmaria