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17 de junho de 2014

Pensamento de galinha

Ilustração de Flor Opazo
Se ela pensasse, pensaria assim: é muito melhor morrer sendo útil e gostosa para uma gente que sempre me tratou bem, essa gente por exemplo não me matou nenhuma vez. (A galinha é tão burra que não sabe que só se morre uma vez, ela pensa que todos os dias a gente morre uma vez.)


Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012

16 de junho de 2014

Verdades sobre Laura

Ilustração de Flor Opazo



Acho que vou ter que contar uma verdade. A verdade é que Laura tem o pescoço mais feio que já vi no mundo. Mas você não se importa, não é? Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro. Você tem beleza por dentro? Aposto como tem. (...)

Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos. Não muitos, mas que tem, tem.


Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012

Laura é uma galinha


Ilustração de Flor Opazo

Peço a você  o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi. Vive no quintal de Dona Luísa com as outras aves. É casada com um galo chamado Luís. Luís gosta muito de Laura, embora às vezes brigue com ela. Mas briguinha à toa.

Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012

10 de junho de 2013

O sulco

Desde que lhe morreu o marido a Bice viu-se reduzida a falar com uma galinha.Dá-lhe de comer numa travessa sêmeas em papa e fica sentada a fazer-lhe companhia no degrau da porta de casa.

Depois a galinha vai para fora e de vez em quando pára na praça ou onde bem lhe apetece. Mais tarde a Bice vai perguntar aos rapazes se a viram passar. Todas as manhãs entram juntas na igreja onde estava pintada na parede a Nossa Senhora sentada que em mil novecentos e catorze chorara porque estava para rebentar a primeira guerra mundial. Então todas as mulheres de Rimini e Ravenna vieram rezar pelos filhos e pelos maridos que estavam em perigo.

Ilustração de Lookarna
Depois acabou a guerra e nunca mais lhe ligaram. A água gotejava do tecto e catrapás, a neve deitou tudo abaixo.

Assim a igreja caiu no abandono e a pintura pouco a pouco foi-se apagando da parede e transformando em pó. Só ficou o sulco no rego que fizeram as lágrimas de Nossa Senhora quando chorou.

A Bice põe-se de joelhos diante daquela risca e a galinha fica acocorada ao pé dela.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas