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31 de agosto de 2013

Um sentir entre o sentir

Dá-me a tua mão:
 
Ilustração de Ester Roí
 
        Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

                                 Clarice Lispector, in A paixão segundo G.H., Relógio d'Água, 2000, p.79

28 de agosto de 2013

Abandonar-se...



Ilustração de Aimee Sicuro


Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para a minha liberdade. Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será entregar-me... 
 
Clarice Lispector, in A paixão segundo G.H., Relógio d'Água, 2000, p. 14

26 de agosto de 2013

Arte poética



Ilustração de 

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Satoshi Ota













Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 7

25 de agosto de 2013

Luz

Ilustração de Akira Kusaka

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 48

24 de agosto de 2013

Flores do deserto

Ilustração de Beatriz Martin-Vidal


No deserto as flores desabrocham na imaginação.

Fragmento Anónimo, século I depois da Hégira

As flores do deserto não precisam de água, precisam de imaginação.

Variante do Fragmento 35 citado por Gunnar Helverg


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 51

23 de agosto de 2013

Deserto

Perto de Ispaão,*
há uma ameixeira
que dá dois tipos de frutos:
as ameixas que são doces e
os espaços entre as ameixas
que são silenciosos. São estes
últimos que, ao fim da tarde,
exibem o pôr-do-sol através dos ramos.

Petar Stamboliski, Poesia 

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 36



* Província do Irão

22 de agosto de 2013

Azul

Ilustração de Vladimir Kryloff


A luz, se formos luz. A sombra
se formos sombra: os olhos, sombra;
o coração, sombra; a própria luz
do pensamento, exílio e sombra.


Na infância (pois fomos
jovens um dia) atrás dos reposteiros
o invisível vigiava
o nosso sono desperto.

Agora que acordámos
do amarelo e do azul
e do branco e do azul
e do coração e do azul,

como regressaremos
a este mundo?
(O azul não é deste mundo,
nem os olhos são deste mundo)

À nossa porta batem
inúteis as lembranças: sombras.
Cegámos. Os amigos (sombras)
morreram de doenças de velhos,
o enfarte, a solidão, ou só
de morte, e nem
uma réstia de azul iluminou
o seu último olhar.

Se ao menos tivéssemos
envelhecido sem motivo, sem tempo,
desaparecido para dentro
lucidamente, como uma coisa desprendendo-se.



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal,
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., pp. 28-29

20 de agosto de 2013

No mar passa de onda em onda repetido

Ilustração de Alexandra Boiger 

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.

                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido

19 de agosto de 2013

Eu me perdi

Ilustração de Jean-Baptiste Monge

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

18 de agosto de 2013

Trepidação


Ilustração de Veronika Marosy


Saímos do comboio:
A fotografia, afinal,
não estava tremida.

Hiro Yamaguchi


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 101

16 de agosto de 2013

O que é a cultura?

Ao longo da História, a noção de cultura teve diferentes significados e matizes. Durante muitos séculos foi um conceito inseparável da religião e do conhecimento teológico; na Grécia foi marcado pela filosofia e em Roma pelo direito, enquanto no Renascimento era impregnado sobretudo pela literatura e pelas artes. 



Em épocas mais recentes como o iluminismo foram a ciência e as grandes descobertas científicas que deram a orientação principal à ideia de cultura. 

Caricaturas de escritores e escritoras por Mike Caplanis

Mas, apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de fatores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 61

14 de agosto de 2013

Arte e literatura não morrem



Caricatura de Pessoa por Tullio Pericoli


A obra literária e artística que alcança um certo grau de excelência não morre com o passar do tempo: continua a viver e a enriquecer as novas gerações e evoluindo com elas.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 69

12 de agosto de 2013

Arte e sensualidade

Ilustração de Cecile Veilhan
A arte e a sensualidade são a mesma coisa.

Picasso

citado por Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 114

11 de agosto de 2013

Ritual do amor



Ilustração de Leandro Lamas


...se quisermos que o amor físico contribua para enriquecer a vida das pessoas, libertemo-lo dos preconceitos, mas não das formas e dos rituais que o embelezam e civilizam e, em vez de o exibir à luz do dia e pelas ruas, preservemos essa privacidade e discrição que permitem que os amantes brinquem a ser deuses e sentir que o são naqueles instantes intensos e únicos da paixão e do desejo partilhados.



Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.111

A um jovem poeta



Ilustração de Arianna Russo
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 59

10 de agosto de 2013

Imortalidade

Desenho de Júlio Pomar





Há dois tipos de pessoas no mundo: 


as que acreditam que Pessoa morreu 

e as que o leram ainda no outro dia.

L. Ventura



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 64

Einstein estava errado

Ilustração de Vladymyr Lukash

Einstein está cada vez mais errado. Isto não é um contínuo espaço/tempo. É um contínuo falta-de-espaço/falta-de-tempo.


Lukasz Szczepanski

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

8 de agosto de 2013

Evolução da sociedade

Ilustração de Vladymyr Lukash


Chama-se 
evolução
da sociedade
ao tempo que
se leva a concordar
com os artistas 
do século passado.

Tsilia Kacev, Exposição em Paris, 1979



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 49

7 de agosto de 2013

Viver e estar vivo

Ilustração de Liu-Qiming


Todos os que vivem
morrem, 
mas nem todos 
os que morrem
viveram.

Kláta Sors



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 105

6 de agosto de 2013

Escultura

Ilustração de Vanessa Cooper


O homem é como a pedra
dum escultor.
Quem diria que, desbastada,
se encontraria lá dentro
uma obra-prima?
Dentro do homem,
quem diria que poderíamos
encontrar Deus?

Fragmento Anónimo, século I depois da Hégira



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

5 de agosto de 2013

Poliopsia



Ilustrações de Vladimir Kryloff

Existe uma doença oftálmica chamada poliopsia. Consiste em ver várias imagens dum mesmo objecto. Quando a poliopsia ataca o cérebro, chamamos-lhe sabedoria: consiste em ver o mesmo objecto, mas de perspectivas diferentes, como se fosse visto por várias pessoas.

Tsilia Kacev, frase que adorna a obra "Mesa", citado por Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 79

Berlinde

Ilustração de Kaatje Vermeire
No futuro
iremos passar durante
um minuto todos os dias,
interromper o que estivermos
a fazer, de repente, a meio
de uma palavra, de uma passada,                                    
de uma garfada. E, perfeitamente
imóveis, veremos que o mundo
é uma cruz para quem o carrega
e um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.

(Petar Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 24

Arte de ladrões

Ilustração de Shiori Matsumoto


...a literatura é uma arte

escura de ladrões que roubam a ladrões


Manuel António Pina,  "Emet" in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 72

4 de agosto de 2013

Primeiro domingo

Ilustração de Lily Greenwood

A tarde estava errada, 

não era dali, era de outro domingo,

quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 49

3 de agosto de 2013

Avarento

Ilustração de Ryszard Chmiel

O avarento segue o caminho das trevas só para não ter de apagar a luz.
 
Malgorzata Zajac
 
 
Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 19

O velho abutre

Ilustração de Jean-Baptiste  Monge

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

1 de agosto de 2013

Somos assim...



Ilustração de Cosei Kawa


Lili  Sou muito incompleta, pois, pois. Como um frasco destapado. É assim.


             Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.50

Um olhar sobre a rua

Ilustração de Elisabetta Decontardi




Senhora de fato   Mas tem coisas boas, não tem? 

Lili   O quê?

Senhora de fato   Viver na rua. As pessoas preocupam-se com as coisas essenciais, com comer e dormir, em vez de andarem a pensar em sapatos italianos.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.53