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1 de julho de 2014

O arco das espumas


Ilustração de RosArt

O mar rolou as suas ondas negras


Sobre as praias tocadas de infinito.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 282

25 de abril de 2014

Promessa

Ilustração de Amélie Fléchais


Na clara paisagem essencial e pobre


Viverei segundo a lei da liberdade


Segundo a lei da exacta eternidade.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 288

Eu falo da primeira liberdade

Ilustração de Oliver Flores


Eu falo da primeira liberdade

Do primeiro dia que era mar e luz

Dança, brisa, ramagens e segredos

E um primeiro amor morto tão cedo

Que em tudo que era vivo se encarnava.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 281

20 de agosto de 2013

No mar passa de onda em onda repetido

Ilustração de Alexandra Boiger 

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.

                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido

25 de fevereiro de 2013

Soneto de Eurydice

Ilustração de Alice Guicciardi



Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Melo Breyner Andresen, in No Tempo dividido


20 de fevereiro de 2013

Praia

Ilustração de Adrienne Trafford
Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido (1954)