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25 de março de 2020

(Part)ida

Ilustração de Gabriel Pacheco
Vou para um outro
mundo
que não tenha fim
ou uma barca a mais

Vou para um outro
dia
que não tenha sombras
ou sabor a sol

Vou para um outro
sonho
que não tenha aves
ou palmas de mãos


 Daniel Faria, in Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009

17 de junho de 2015

Asas libertadoras

Ilustração de Elina Ellis

Que difícil é a vida dos homens. Eles não têm asas para voar por cima das coisas más.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Fada Oriana


14 de junho de 2015

Liberdade



Ilustração de Paulina Góra (Antosz)


Uma gaiola foi à procura de um pássaro.


Franz Kafka, in Aforismos (escritos na localidade histórica de Zürau), Assírio&Alvim, 2008, p. 40

25 de abril de 2014

Promessa

Ilustração de Amélie Fléchais


Na clara paisagem essencial e pobre


Viverei segundo a lei da liberdade


Segundo a lei da exacta eternidade.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 288

Eu falo da primeira liberdade

Ilustração de Oliver Flores


Eu falo da primeira liberdade

Do primeiro dia que era mar e luz

Dança, brisa, ramagens e segredos

E um primeiro amor morto tão cedo

Que em tudo que era vivo se encarnava.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 281

4 de outubro de 2013

Gaiolas por dentro



Ilustração de Afonso Cruz
Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. 


Ilustração de Liz Pulido



E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam.


Ilustração de Kristina Swarne

Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro da prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.29

28 de agosto de 2013

Abandonar-se...



Ilustração de Aimee Sicuro


Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para a minha liberdade. Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será entregar-me... 
 
Clarice Lispector, in A paixão segundo G.H., Relógio d'Água, 2000, p. 14

5 de julho de 2013

Sonho e poesia

Ilustração de Dilka Bear

O sonho é, frequentemente, significativo e profético, porque ele é um efeito da alma da Natureza - e por isso baseado na ordem das associações. Ele é, como a Poesia, significativo - mas também por isso mesmo, significativo sem regras - inteiramente livre.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

28 de abril de 2013

Compreender as árvores

Ilustração de Afonso Cruz



Não é preciso ser cientista para compreender as árvores, basta ser pássaro. Ou Abril.



Afonso Cruz, "28 de Abril" in O livro do Ano

3 de setembro de 2012

Liberdade humana

A vida do homem não pode "ser vivida" repetindo os padrões da espécie; é ele próprio - cada um de nós - quem deve viver. O homem é o único animal que pode estar aborrecido, que pode estar enojado, que pode sentir-se expulso do paraíso.
Erich Fromm, in Ética e Psicanálise, apud Savater, Ética para um jovem

2 de setembro de 2012

Sim ou Não

Ilustração de Anna Silivonchik
 
A liberdade não é uma filosofia e nem sequer é uma ideia: é um movimento da consciência que nos leva, em certos momentos, a proferir dois monossílabos: Sim ou Não. Na sua brevidade instantânea,  como a luz do relâmpago, desenha-se assim o sinal contraditório da natureza humana.
 
Octavio Paz, in A Outra Voz, apud Savater, Ética para um jovem
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

25 de abril de 2012

Liberté



Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J'écris ton nom

Sur les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

      
Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts

Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom
Ilustração de Inna Panesenko

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer






Paul Eluard, in Poésies et vérités, Ed. de Minuit, 1942