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14 de junho de 2015

Liberdade



Ilustração de Paulina Góra (Antosz)


Uma gaiola foi à procura de um pássaro.


Franz Kafka, in Aforismos (escritos na localidade histórica de Zürau), Assírio&Alvim, 2008, p. 40

17 de fevereiro de 2014

Para escrever o poema

Ilustração de Eszter Schall

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.


O poeta quer escrever sobre a maçã:

e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.


O poeta quer escrever sobre uma flor:

e a flor murcha no jarro da estrofe.


Ilustração de Emilie Vast


Então, o poeta faz uma gaiola de palavras

para o pássaro não fugir.


Então, o poeta chama pela serpente

para que ela convença Eva a morder a maçã.




Ilustração de Emilie Vast





Então, o poeta põe água na estrofe

para que a flor não murche.





Mas um pássaro não canta

quando o fecham na gaiola.



A serpente não sai da terra

porque Eva tem medo de serpentes.


E a água que devia manter viva a flor

escorre por entre os versos.


E quando o poeta pousou a caneta,

o pássaro começou a voar,

Eva correu por entre as macieiras

e todas as flores nasceram da terra.


Ilustração de Mary Alayne Thomas
Ilustração de Lucy Campbell
















O poeta voltou a pegar na caneta,

escreveu o que tinha visto,

e o poema ficou feito.


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, Dom Quixote,2008, 1ª ed., pp. 52-53

4 de outubro de 2013

Gaiolas por dentro



Ilustração de Afonso Cruz
Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. 


Ilustração de Liz Pulido



E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam.


Ilustração de Kristina Swarne

Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro da prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.29