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31 de janeiro de 2013

30 de janeiro de 2013

Com fúria e raiva

Ilustração de Olivier Tossan
Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

29 de janeiro de 2013

Inscrição



Ilustração de Jeffrey Larson
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia

Ilustração de Mariana Kalacheva
A poesia de Sophia é das mais luminosas e ao mesmo tempo - e talvez por causa disso - das mais sóbrias da literatura portuguesa.


António Mega Ferreira 

Ciclo de Conferências "Que língua falam os poetas?"

Biblioteca Municipal de Oeiras,

25 de janeiro de 2013

28 de janeiro de 2013

Proibida a entrada

                                                

Ilustração de Amy Lyn Bihrle 









É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.

José Gomes Ferreira, in As aventuras de João Sem Medo


27 de janeiro de 2013

Pequena elegia chamada domingo

Ilustração de Akzhana Abdalieva
O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens. Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens

não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
 

Eugénio de Andrade, in As mãos e os frutos

25 de janeiro de 2013

Nus

Ilustração de Mariana Kalacheva

Como é que tão depressa ficámos nus diante do lume? Há meses e meses que  nos não víamos. Não esperava sequer voltar a ver-te. 

(...) - e num instante nos encontrámos nos braços um do outro, confundidos e mergulhados um no outro, como se nada mais existisse em todo o mundo.


David Mourão-Ferreira, "Os Amantes", in Os Amantes e outros contos 


24 de janeiro de 2013

Imagem

Ilustração de Feridun Oral




Este é o poema de uma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.   

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Miguel Torga

22 de janeiro de 2013

Como o rumor



Ilustração de Maki Hino
Como o rumor do mar dentro de um búzio                
O divino sussurra no universo

Algo emerge: primordial projecto.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas

21 de janeiro de 2013

A forma justa




Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Cidades, de Amy Casey
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo



Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas