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4 de agosto de 2013

Primeiro domingo

Ilustração de Lily Greenwood

A tarde estava errada, 

não era dali, era de outro domingo,

quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 49

15 de abril de 2013

Domingo em casa


Ilustrações de Sun Haeng Heo



Amanhã podia ser domingo, e

não haver sol; podia ouvir os sinos e

dizer que era apenas uma ilusão; podia

descer a rua e não encontrar o homem

que vende os jornais; podia chegar

ao largo e não ver as mulheres

em grupo a caminho da igreja, onde

vai começar a missa.



Amanhã podia ser domingo,

e as ruas estarem vazias como se

não houvesse nada para fazer; podia não

ser domingo e todas as lojas

fecharem, podia não

ser domingo e alguém perguntar

o que é que se faz quando não

é domingo.



Amanhã podia ser um dia qualquer,

e não saber em que dia estou; podia

olhar para o relógio e descobrir que

os ponteiros estão parados, podia

ouvir alguém falar, e não saber de onde


vem a voz que sai da sua boca, como

se estivesse sozinho.



Ou então, podia abrir a porta e

ver que o domingo quer entrar; e

puxá-lo para dentro da casa, para


que lá fora fique sem domingo; e

sair para a rua num dia qualquer,

perguntando a quem passa

se viu passar o domingo.

Nuno Júdice, in As coisas mais simples

27 de janeiro de 2013

Pequena elegia chamada domingo

Ilustração de Akzhana Abdalieva
O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens. Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens

não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
 

Eugénio de Andrade, in As mãos e os frutos

20 de janeiro de 2013

Domingo

Ilustração de Maki Hino

 ...e o domingo terminava, com uma serenidade cansada e triste.



Eça de Queirós, in O Primo Basílio

24 de junho de 2012

Em especial aos domingos

Ilustração de Cocci Lune


Em especial aos domingos

quando ninguém está em casa

aí por finais de Junho

subo então ao terraço

para perceber além dos muros

a cidade silenciosa.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria