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16 de abril de 2020

A intensidade da vida


Ilustração de Jimmy Liao

...o tempo (...) longo ou breve, isso não tem importância porque a vida se mede pela intensidade com que é vivida...

Luís Sepúlveda, in História de um gato e de um rato que se tornaram amigos

26 de janeiro de 2016

O tempo e a rosa



 
Ilustração de Joanna Pasek


Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

Saint-Exupéry, in O Principezinho

20 de janeiro de 2016

Variação sobre rosas

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar. 



Ilustração de Kristian Adam
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta. 



                                                   Nuno Júdice, in Pedro, lembrando Inês, Dom Quixote, 2001, p.11
 

13 de janeiro de 2016

Velhice

Ilustração de Victo Ngai






A velhice é outra forma de contar o tempo.


José Jorge Letria, in A vida segundo Goya, 
Guerra e Paz, 2015, p. 139

21 de julho de 2015

Nada entre nós tem o nome da pressa

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas - 
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós


Ilustração de Casey O'Connell



o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

           Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 43

24 de março de 2015

No reino desta menina...

Ilustração de Carolee Clark

No reino desta menina [Alice, no país das maravilhas], dominado por relógios de variada descrição, o surto de um coelhinho branco, e do mecanismo de bolso que o mesmo ostentava, não deveria suscitar a menor das surpresas. Mas tratava-se na circunstância de um contador do tempo do sonho, função que requeria um apurado engenho, e de aspecto especial. O relógio do Coelho marcava horas esdrúxulas...

                                        
                                                        Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 31

27 de fevereiro de 2015

O tempo e as histórias

Ilustração de Deborah Dewit

Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48

26 de fevereiro de 2015

O tempo do caracol

Ilustração de Amber Alexander

Um caracol japonês subia lentamente ao longo de um tronco de cerejeira. Estava-se em Fevereiro ou Março. O caracol encontrou um insecto que lhe disse:

 - Onde vais? Não está na época! Não há cerejas nesta árvore!

 - Haverá quando eu chegar - respondeu o caracol sem parar.


Jean-Claude Carrière, "O insecto e o caracol", 
in Tertúlia de mentirosos - Contos filosóficos do mundo inteiro,
Teorema, 2000, p. 348

25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


23 de fevereiro de 2015

Nem todos os minutos são iguais

Ilustração de Selda Marlin Soganci

A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66 

22 de fevereiro de 2015

Todas as coisas têm o seu tempo

Ilustração de Annie Stegg

Há tempo para nascer, e tempo para morrer; 
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para matar, e tempo para dar vida;

tempo para destruir, e tempo de edificar;
Tempo para chorar, e tempo para rir; 

tempo para se afligir, e tempo para dançar;
Tempo para espalhar pedras, e tempo para as juntar;

tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles;
tempo para adquirir e tempo para perder;

tempo para guardar, e tempo para atirar fora;
tempo para rasgar, e tempo de coser;
tempo para  calar  e tempo para falar;
tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Eclesiastes 3:2-8

4 de outubro de 2014

Quando o tempo pára


Ilustração de Ofra Amit



Todos os relógios de Havana devem ter parado enquanto durou o beijo abocanhado dos amantes.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p.49

29 de junho de 2014

Ler infinitamente

A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. (...)


Ilustração de Siegfried Linke


Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia a dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. 



Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 160

14 de novembro de 2013

O que sabem os relógios?

Ilustração de Georgiana Chitac
Que infelicidade. Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios sobre a alma humana? (...)

O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passa a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz. 


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p.118

10 de agosto de 2013

Einstein estava errado

Ilustração de Vladymyr Lukash

Einstein está cada vez mais errado. Isto não é um contínuo espaço/tempo. É um contínuo falta-de-espaço/falta-de-tempo.


Lukasz Szczepanski

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

4 de agosto de 2013

Primeiro domingo

Ilustração de Lily Greenwood

A tarde estava errada, 

não era dali, era de outro domingo,

quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 49

23 de julho de 2013

Tempo

Ilustração de Vladimir Kryloff

Tempo
Tempo sem amor e sem demora
Que de mim me despe pelos caminhos fora

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

7 de abril de 2013

O poema


Ilustrações de Kristina Swarner


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)




















Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

12 de janeiro de 2013

O tempo do inútil



O tempo de ler associa-se ao tempo de lazer mas também ao não tempo, que é o tempo de Deus. O tempo do inútil, do “desútil”, como refere o poeta brasileiro Manoel de Barros, ou seja, de um tempo mais para ser do que para fazer, um tempo por vezes difícil de encontrar e de nos concedermos mas que, quando no-lo concedemos, nos amplia o olhar e o coração, cava o silêncio que germina em nós e nos purifica. Ler é, pois, também ler-nos, ler a nossa própria história, quer por identificação quer por contraste com personagens, vivências, locais, cores, culturas, aromas, civilizações, hábitos e costumes. O tempo e o espaço transportam-nos para outros lugares e para lugar nenhum, para a utopia, o sonho, a irrealidade, um espaço de liberdade e de imaginação, espaço de narrativas que nos oferecem um tempo gratuito, de fruição ou de aprendizagem. De encontro ou de ilusão. De simpatia ou de transporte para outras realidades diferentes das do quotidiano.

Ilustrações de Glenda Sburelin

Os livros são ponte para a “teologia da inutilidade”, de que nos fala Tolentino Mendonça, para o lugar da estética, da poesia, da reflexão, do sem porquê, como a rosa ou o brinquedo.,

Maria Carla Crespo

23 de agosto de 2012

Sobre a mudança

Ilustração de Limeunhee
Talvez se tivesse dito, ao vê-la, que nada
poderia destruir a sua beleza. Nem vénus a perdeu, quando
lhe partiram os braços, ou de quantas outras estátuas
não restaram senão fragmentos, e ainda é possível
sonhar o todo a partir da parte. Mas pouco importa o que
se diz: a beleza, apesar daquilo que o tempo fez
ao corpo, pertence-lhe, e basta um breve olhar,
o gesto que repete o movimento de outrora,
a suave inflexão de uma frase, para trazer de volta
tudo o que parecia desaparecido. Por isso,
quando me cruzo com as mulheres que parecem
perdidas, num cruzamento, à espera de poderem
passar para o outro lado, ou quando as vejo
numa indecisão de pedir alguma coisa ao empregado
que se aproxima, com a carteira ao colo,
apago as sombras que as rodeiam, e devolvo-lhes
a luz de uma longínqua adolescência, o brilho
de rostos em que o amor ainda vivia, e um sorriso
a nascer no canto dos lábios, dissipando
a amargura do presente.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável