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1 de março de 2015

O perfume

Ilustração de Silvia Álvarez Castellar

De facto, como acontece com a moda, o perfume aproxima os iguais, distinguindo os diferentes.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 60

27 de fevereiro de 2015

O tempo e as histórias

Ilustração de Deborah Dewit

Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48

25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


23 de fevereiro de 2015

Nem todos os minutos são iguais

Ilustração de Selda Marlin Soganci

A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66 

12 de fevereiro de 2015

Scanners corporais e privacidade

O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...) 

Ilustração de Diane Duda

O Parlamento  Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, 
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p.36

6 de fevereiro de 2015

O flanneur e a lufa-lufa da cidade

Ilustração de May Ann Licudine

Quanto mais rápido o movimento menos profundidade se tem das coisas, mais chapadas elas se nos mostram. As cidades tradicionais, pelo contrário, eram feitas para serem vistas de perto, com detalhe. O flanneur, de Baudelaire, vivia na rua como se estivesse em casa, fazendo do café a sua sala de visitas e da banca de jornais a sua biblioteca.



José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 35

Hiperatividade ou má educação?

Ilustrações de Anna Lisk



A hiperactividade das crianças esconde, na verdade, um problema maior: a sua má educação. A hiperactividade é apenas um efeito psicológico de um fenómeno social que decorre do "paradigma do encontrão".


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 42

5 de fevereiro de 2015

Máscaras sociais


Ilustração de Magalie Bucher 

...a cortesia [aparece] como máscara de uma indiferença que Goffman (...) identificava como "desatenção cortês": de sorrisos falsos, de palavras de circunstância, de "obrigados" que nada obrigam, enfim, de uma teatralização que tem levado a que a cidade seja lida como um palco de representações, fazendo o esplendor das análises dramaturgas da vida quotidiana.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

4 de fevereiro de 2015

Lentidão vs. encontrão

Ilustração deLisa Falzon

O paradigma da lentidão deu lugar ao do encontrão - sagazmente identificado por E. A. Poe (...) quando se deu conta de que, entre a multidão, os transeuntes rasgavam caminho à custa da cotovelada e do inevitável empurrão. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

3 de fevereiro de 2015

...até no amor

Os tempos mudaram. As saudações outrora tão cheias de vénias simplificaram-se, consumando-se num simples "Oi!" ou "Olá, que tal?" Como se a vida se pudesse resumir a tal. E qual.

Ilustração de Alice De Page


Há que ser rápido em tudo, até no amor. 

José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

2 de fevereiro de 2015

O elogio da lentidão

Em filosofia, o vencedor da corrida é aquele que consegue correr mais devagar.

Wittegenstein 

Ilustração de 度薇年 

apud José Machado Pais, Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28