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31 de dezembro de 2013

Os nossos dedos abriram mãos fechadas

Ilustrações de Jan Pashley

Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.



E a cidade partiu como um navio
Através da noite.

Sophia de Mello Breyner, Coral, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 172

29 de dezembro de 2013

O Menino

Ilustração de Laimonas Smergelis
Neste solstício de Inverno ele vai nascer 

algures no Mundo entre ruínas 

no lugar do não ser ele vai ser 

deitado nas palhinhas sobre as minas 

em todos os meninos o menino 

muçulmano judeu cristão 

o mesmo coração e um só destino.


Manuel Alegre, 2009


Natal


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Era gente a correr pela música acima.

Uma onda uma festa. Palavras a saltar. 




Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.

Guitarras guitarras. Ou talvez mar.

E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.



No teu ritmo nos teus ritos.

No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).

Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.

E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.

No teu sol acontecia.





Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

Todo o tempo num só tempo: andamento

de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.

Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva

acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.





Natal Natal (diziam). E acontecia.

Como se fosse na palavra a rosa brava

acontecia. E era Dezembro que floria.

Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.

E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.



Ilustrações de Laimonas Smergelis



Manuel Alegre

28 de dezembro de 2013

Inventar o sonho

Ilustração de João Nasi Pereira

Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.


Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 16

24 de dezembro de 2013

Pai Natal

Ilustração de Christine Thouzeau

O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.

                                                                        Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 8

A poesia do Natal...

Ilustração de Sarah Hoyle



E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.


Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 5

23 de dezembro de 2013

Poema e silêncio

Ilustração de Daniela Giarratana

Talvez a primeira coisa que o poema transmite seja realmente a necessidade do silêncio, de mergulhar numa experiência, de uma linguagem que está para lá da palavra.


         José Tolentino Mendonça, "A arte do silêncio" in JL nº 1127, de 11 a 24 de dezembro de 2013, p. 9

O endereço do poema

Ilustração de Katja Saario


...o endereço do poema é o silêncio.


José Tolentino Mendonça, "A arte do silêncio" in JL 

nº 1127, de 11 a 24 de dezembro de 2013, p. 9

19 de dezembro de 2013

Que segredo tem o Natal?

Ilustração de Jan Pashley


Pergunto-me, Senhor, que segredo tem o Natal?
Há um milagre que acontece dentro de nós,
só pode ser um milagre, pois é como se a vida se reacendesse.

Contemplando o presépio, percebo que este é um milagre humaníssimo
que Deus suscita aos nossos olhos.
Ele amou-nos tanto que nos deu o Seu próprio Filho.

O milagre do Natal assenta sobre este Dom absoluto, 
que nos faz perceber que só somos na medida em que nos damos,
e que a vida renasce, como dádiva, na ponta dos dedos, no olhar, nas palavras.


José Tolentino Mendonça

17 de dezembro de 2013

Zeca Perpétuo

Ilustração de Alberto Godoy


- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.

                                                                           Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 9 



16 de dezembro de 2013

A vida é tão simples que ninguém a entende...

- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...

Ilustração de Manuel Lopes Herrera

Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por onda. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.

Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., pp. 9-10 

15 de dezembro de 2013

Palavras de Mandela (4)

Ilustração de Ruud van Empel

Pode dizer-se que há quatro coisas básicas e essenciais que a esmagadora maioria do povo de uma sociedade deseja: viver num ambiente seguro, conseguir trabalhar e sustentar-se, ter acesso a boa saúde pública e sólidas oportunidades educacionais para os filhos. Actualmente, enquanto sociedade, podemos estar a batalhar nestas quatro áreas, mas temos de permanecer confiantes de que, com o compromisso pessoal de cada um de nós, poderemos e iremos ultrapassar os obstáculos na via para o desenvolvimento.

[Mandela] na inauguração da Oprah Winfrey Leadership Academy, Henley-on-Klip, 
África do Sul, 2 de janeiro de 2007

  The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson MandelaObjectiva, 2012, 1ª ed., p. 145 

Palavras de Mandela (3)



Ilustração de Susan Gal



Embora enfrentemos muitos desafios,  e embora tenhamos ainda muito caminho a percorrer no que respeita à erradicação das consequências do nosso passado, para nos tornarmos uma nação totalmente unida e reconciliada, juntos, lançámos o alicerce para o fazer.





Discurso sobre o orçamento na abertura do debate presidencial, 

Parlamento, Cidade do Cabo, África do Sul, 2 de março de 1999

 The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson MandelaObjectiva, 2012, 1ª ed., p. 145

14 de dezembro de 2013

Palavras de Mandela (2)

Ilustração de Alice Tams

Os líderes sabem bem que a crítica construtiva no seio das estruturas da organização, por mais ferina que seja, é um dos métodos mais eficazes de  resolver problemas internos.

Nelson Mandela (c. 1998) 

The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 133 

12 de dezembro de 2013

Palavras de Mandela (1)

Ilustração de The head of state

Sabemos, e a maioria dos sul-africanos sabe, pela sua experiência diária, que o apartheid continua a coabitar connosco: nos telhados rotos e nas paredes de zinco das barracas: nos estômagos famintos das crianças; na escuridão das casas sem electricidade; e nos pesados baldes de água que as mulheres rurais acartam percorrendo longas distâncias para cozinhar e matar a sede.

Jantar anual da Associação de Correspondentes Estrangeiros, 
Transvaal Automobile Club, 
Joanesburgo, África do Sul, 21 de Novembro de 1997

The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 73 

10 de dezembro de 2013

Os invisíveis



 


Diálogo entre duas pessoas sem-abrigo em O cultivo de flores de plástico:

Senhora de fato Realmente. As pessoas que abrem a janela e vêem que a vida é colorida e bela é porque não nos vêem. Não existimos, pois não?

Ilustração de Angela Muss

Lili Somos pessoas que são cactos e ninguém quer chegar perto de nós com medo de se picar, pois, pois, somos sozinhos como os desertos, mas então. Cheios de céu aberto, pessoas cheias de ar livre. É assim. Há muitas portas no mundo.


Afonso Cruz 


9 de dezembro de 2013

Chave-coração

Voz de uma sem-abrigo na peça O cultivo de flores de plástico, de Afonso Cruz:

Lili (...) O meu pai, quando a gente se portava bem, dava-nos um doce e dizia coisas certas, pois, pois. Ele sabia tudo. Nunca mais ouvi uma pessoa que soubesse as coisas certas. Devagar. Quando alguém lhe dizia que não era assim. ele insistia: é tal. E as pessoas calavam-se, porque ele tinha óculos e barba e sabia as coisas certas. Depois morreu de distância.

Ilustração de Maki Horanai

(...) Quando vim para a rua, comecei a lembrar-me dele e ele já não está morto, mesmo que esteja muito longe, num lugar qualquer que não sei onde fica. Tenho a chave da casa dele.

7 de dezembro de 2013

Partida e chegada das estações

Ilustrração de Noumeda Carbone


Em silêncio o rochedo

vê chegar e partir


as estações



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 29

5 de dezembro de 2013

A perversão de Narciso

Ilustração de Sophie Leta



Decidira que o amor fazia parte da vida,
ao contrário do que pensara. Olhava
para o espelho e recusava o que via,
correndo para a rua em busca de outros
rostos mais belos: os da jovem que passou
à sua frente e o olhou de relance, inquieta
ao adivinhar o seu desejo; ou o dessa que
alisava os cabelos com as mãos, como se
estivesse a acariciar-se, e os seus olhos
perdiam-se na fronteira de um sonho
acordado. Queria dizer-lhes que as amava,
e que deixara para trás de si a sua imagem,
e a obsessão de se ver outro para se possuir até
à última esfera da loucura. E elas olhavam-no,
pedindo-lhe que se aproximasse. Mas
ele continuava parado como se nem sequer
as visse. Então, cansadas de esperar, partiam,
deixando-o entregue à solidão, e
ao inútil desejo de si próprio.


                          
                                 Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 33

4 de dezembro de 2013

Pequenas memórias

Ilustração de Madalena Matoso

Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. 

Ilustração de Madalena Matoso

Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.

Ilustração de Csil Cb
Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...


José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp. 63-65

3 de dezembro de 2013

Balão ou mundo?


Ilustração de Anna Lisk
Um ou outro domingo, pela tarde, as mulheres desciam à Baixa para ver as montras. Geralmente iam por seu pé, alguma vez tomariam o carro eléctrico, que era o pior que me podia suceder nessa idade, porque não tardava a enjoar com o cheiro lá de dentro, uma atmosfera requentada, quase fétida, que me revolvia o estômago e em poucos minutos me punha a vomitar. Neste particular fui uma criança delicada. Com a passagem do tempo esta intolerância olfactiva (não sei que outro nome lhe poderei dar) foi diminuindo, mas o certo é que, durante anos, bastava-me entrar num carro eléctrico para sentir a cabeça a andar à roda. (...) Não me lembro das montras, nem é para falar delas que estou aqui, assuntos mais sérios me ocupam neste momento. Junto a uma das portas dos Armazéns Grandella havia um homem a vender balões, e, fosse por tê-lo eu pedido (do que duvido muito, porque se quem espera que se lhe dê é que se arrisca a pedir), fosse porque minha mãe tivesse querido, excepcionalmente, fazer-me um carinho público, um daqueles balões passou às minhas mãos. Não me lembro se ele era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco simplesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida.


Ilustração de Csil Cb


Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.

                                          José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp.76-77

2 de dezembro de 2013

A página branca

Ilustração de Ophelia Redpath

Havia uma vez, naquela cidade de província
onde joguei bilhar no intervalo de ver chegarem
e partirem as traineiras, uma jovem mulher
que se sentava na mesa mais triste do café,
e olhava em frente, sem que os seus olhos
mudassem de expressão. Todos os dias era 
assim, e dela só fiquei a saber que ninguém
a conhecia. Na mesa, o mesmo livro com o mesmo
marcador que nunca saía da mesma página,
e que ela nunca abria como se não quisesse saber
como a história acabava. Naquele café, tiraram
o bilhar; naquela cidade já não há traineiras
a chegar e a partir; mas quando olho para
a mesa do canto onde a jovem mulher se
sentava, penso sempre na história que ficou
a meio, sem que eu saiba como acabou.

Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 32 

1 de dezembro de 2013

Não deixes o cansaço instalar-se

Ilustração de Alice Tams

Não deixes o cansaço instalar-se 
Em vez disso
Silenciosamente
Como a um pássaro
Estende a mão ao milagre.


Hilde Domin  (1912 – 2006)

28 de novembro de 2013

Porta ou sorriso?

Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss

...e Mathias Popa abriu a porta sem abrir um sorriso.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.80

27 de novembro de 2013

Verdade e mentira

Ilustração de Toni Demuro

Não existe mentira na literatura, na ficção, e, digo-lhe mais, não existe verdade na vida real. Se perceber isto muito bem, perceberá muito mais coisas.

                                                       Afonso Cruz, in A boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 83




25 de novembro de 2013

Poesia rejeitada

Ilustração de Alexandra Semushina

Peguei na minha obra toda, mais de quatro mil páginas A4, e enterrei tudo num terreno baldio perto de casa. Nessa altura vivia no Cairo. Depois de ter enterrado aquilo cresceram umas ervinhas, mesmo onde eu tinha escavado. Fiquei contente porque não tinha crescido nada à volta, só onde enterrei os poemas. Não sei se foi de ter revolvido a terra, ou se foi a Natureza a demonstrar a sua inclinação pela poesia, especialmente pela rejeitada.

Afonso Cruz, in A boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 83

24 de novembro de 2013

O elogio da confiança (1)

Ilustração de Laimonas Šmergelis



Por pátios e jardins silenciosos
se chega ao lugar
da contemplação


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 55

22 de novembro de 2013

Frio

Ilustração de Gobugi Paper

Aquele dia era um casaco aberto ao frio.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010,p. 75

20 de novembro de 2013

Silêncio e intimidade

Ilustração de Luis Romero


O que por palavras nos está oculto
no silêncio crepita
em intimidade

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 20

19 de novembro de 2013

Silêncio

Ilustração de Luis Romero


Silêncio:
na ravina inacessível
o prado em flor



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 37

18 de novembro de 2013

Silêncio vazio

Ilustração de Luis Romero



O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 15

17 de novembro de 2013

Dança no universo

Ilustração de Marie Cardouat

















Estas folhas que estremecem na tarde
não sabem que dançam
à roda do universo


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 159


16 de novembro de 2013

Nuvens

Ilustração de Vladimir Olenberg


No ramo do marmeleiro

descubro nuvens

que não havia visto



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 112

14 de novembro de 2013

O que sabem os relógios?

Ilustração de Georgiana Chitac
Que infelicidade. Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios sobre a alma humana? (...)

O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passa a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz. 


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p.118

13 de novembro de 2013

Nas mãos do oleiro

Ilustração de Cecelia Webber

Nas mãos do oleiro
o universo descobre-se
inacabado



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 53

11 de novembro de 2013

Tornar-se poema

Ilustração de Marie Cardouat
Agora só resta
tornares-te
o poema


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 173


10 de novembro de 2013

O valor da migalha

Ilustração de Sonja Dimovska


A papoila e o monge, de José Tolentino Mendonça, é um livro de rara beleza poética e intrinsecamente espiritual. 
Um elogio à confiança, à abertura do olhar interior, à profundidade, à pobreza contemplativa, do não saber, da ignorância que despoja, abre horizontes e alarga a esperança. 
Um convite à valorização do ínfimo, da migalha, do único, do quotidiano que nos assiste. 
Um desafio à descoberta da manifestação divina na revelação e no furtivo; no rumor e no silêncio; no tudo e no nada.

Mª Carla Crespo

  

Interrogar a papoila

Ilustração de Marta Álvarez Miguéns


Podes interrogar a papoila
mas a papoila
nada responde



Tolentino Mendonça, 

in A papoila e o monge,

Assírio&Alvim, 2013, p. 28

Adeus

Ilustração de Sasha Ivoilova




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro 
nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes 
verdes. 
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um 
aquário, 
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro

8 de novembro de 2013

Uma pequenina luz

 
Ilustração de Mila Marquis


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha


Jorge de Sena