Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta escola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escola. Mostrar todas as mensagens

23 de junho de 2014

Cansaço da escola

Ilustração de Gooroovoo

Jodoigne, 23 de Abril de 1975.


Estou fatigada. O trabalho da escola cansa-me. Não suporto mais as permanentes intromissões dos pais, que nunca sabem o que querem juntos. Estou com as crianças e penso no livro. Sinto a ausência de um mestre para as minhas constantes interrogações.


Alguém terá de vir.
Cristina veio passar alguns dias connosco, e trouxe-me um livro de Kierkegaard: Les Miettes Philosophiques.


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 51

4 de dezembro de 2013

Pequenas memórias

Ilustração de Madalena Matoso

Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. 

Ilustração de Madalena Matoso

Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.

Ilustração de Csil Cb
Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...


José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp. 63-65

22 de novembro de 2012

Empobrecimento cultural

A ideia ingénua de que, através da educação, se pode transmitir a cultura à totalidade da sociedade está a destruir a "alta cultura", pois a única maneira de conseguir essa democratização universal da cultura é empobrecendo-a, tornando-a cada dia mais superficial.

Ilustração de Judith Clay
A cultura transmite-se através da família e quando esta instituição deixa de funcionar de maneira adequada o resultado "é a deterioração da cultura". Depois da família, a principal transmissora da cultura ao longo das gerações tem sido a Igreja, e não a escola. Não se deve confundir cultura com conhecimento. "Cultura não é só a soma de diversas atividades, mas sim um estilo de vida", uma maneira de ser em que as formas são tão importantes como o conteúdo. O conhecimento tem a ver com a evolução da técnica e das ciências, e a cultura é algo anterior ao conhecimento, uma propensão do espírito, uma sensibilidade e um cultivo da forma que dá sentido e orientação aos conhecimentos.


  Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo,  Quetzal, pp. 13-14