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4 de novembro de 2014

Privacidade

O que é o privado nos nossos dias? 


Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.



Ilustração de Daria Petrilli

O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151

16 de agosto de 2013

O que é a cultura?

Ao longo da História, a noção de cultura teve diferentes significados e matizes. Durante muitos séculos foi um conceito inseparável da religião e do conhecimento teológico; na Grécia foi marcado pela filosofia e em Roma pelo direito, enquanto no Renascimento era impregnado sobretudo pela literatura e pelas artes. 



Em épocas mais recentes como o iluminismo foram a ciência e as grandes descobertas científicas que deram a orientação principal à ideia de cultura. 

Caricaturas de escritores e escritoras por Mike Caplanis

Mas, apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de fatores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 61

14 de agosto de 2013

Arte e literatura não morrem



Caricatura de Pessoa por Tullio Pericoli


A obra literária e artística que alcança um certo grau de excelência não morre com o passar do tempo: continua a viver e a enriquecer as novas gerações e evoluindo com elas.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 69

12 de agosto de 2013

Arte e sensualidade

Ilustração de Cecile Veilhan
A arte e a sensualidade são a mesma coisa.

Picasso

citado por Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 114

11 de agosto de 2013

Ritual do amor



Ilustração de Leandro Lamas


...se quisermos que o amor físico contribua para enriquecer a vida das pessoas, libertemo-lo dos preconceitos, mas não das formas e dos rituais que o embelezam e civilizam e, em vez de o exibir à luz do dia e pelas ruas, preservemos essa privacidade e discrição que permitem que os amantes brinquem a ser deuses e sentir que o são naqueles instantes intensos e únicos da paixão e do desejo partilhados.



Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.111

19 de janeiro de 2013

Cultura e vazio

Ilustrações de Alberto Godoy
 












Só pequenas minorias se emancipam da religião substituindo com a cultura o vazio que ela deixa nas suas vidas: a filosofia, a ciência, a literatura e as artes. Mas a cultura que pode cumprir esta função é a alta cultura.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.40

25 de novembro de 2012

Cultura light

Ilustrações de Susan Herbert

...não é estranho que a literatura mais representativa da nossa época seja a literatura light, leve, ligeira, fácil, uma literatura que sem o menor rubor se propõe antes de mais e sobretudo (e quase exclusivamente) divertir.


 
A literatura light,como o cinema light e a arte light, dá a impressão cómoda ao leitor e ao espectador de ser culto, revolucionário, moderno, e de estar na vanguarda com um mínimo de esforço intelectual. Deste modo, essa cultura que se pretende avançada e de rutura, na verdade propaga o conformismo através das suas piores manifestações: a complacência e a autossatisfação.


Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo,Quetzal, pp. 34,35  

Aborrecimento cultural

Ilustração de Giedra Purlytė-Mažrimienė



Nos nossos dias, o consumo massivo de marijuana, cocaína, ectasy, crack, heroína, etc., está relacionado com um ambiente cultural de prazeres fáceis e rápidos, que os imunizem contra a preocupação e a responsabilidade, em vez do encontro consigo mesmos através da reflexão e da introspeção, atividades eminentemente intelectuais que são aborrecidas para uma cultura inconstante e lúdica.


Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo, Quetzal, pp.38-39

24 de novembro de 2012

Vazio

...as drogas...conferem a momentânea segurança de estar a salvo, redimido e feliz. Trata-se de uma ficção, não benigna, antes maligna neste caso, que isola o indivíduo e que só na aparência o liberta de problemas, responsabilidades e angústias. Porque no fim tudo voltará a aprisioná-lo, exigindo-lhe cada vez maiores doses de aturdimento e sobre-excitação que aprofundarão o seu vazio espiritual.

Ilustração de Giedra Purlytė-Mažrimienė
Na civilização do espetáculo, o laicismo ganhou terreno sobre as religiões, aparentemente.

Só pequenas minorias se emancipam da religião substituindo com a cultura o vazio que ela deixa nas suas vidas: a filosofia, a ciência, a literatura e as artes. Mas a cultura que pode cumprir esta função é a alta cultura...
 
Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo,Quetzal, p. 39 

Frivolidade

O político dos nossos dias, se quer conservar a sua popularidade, é obrigado a dar uma atenção primordial ao gesto e à forma, que importam mais do que os seus valores, convicções e princípios.


Ilustração de Leticia Zamora Méndez

A frivolidade consiste em ter uma tabela de valores invertida ou desequilibrada em que a forma importa mais que o conteúdo, a aparência mais do que a essência e na qual o gesto e desplante - a representação - fazem as vezes de sentimentos e ideias.

Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo, Quetzal, pp. 47-48 

22 de novembro de 2012

Empobrecimento cultural

A ideia ingénua de que, através da educação, se pode transmitir a cultura à totalidade da sociedade está a destruir a "alta cultura", pois a única maneira de conseguir essa democratização universal da cultura é empobrecendo-a, tornando-a cada dia mais superficial.

Ilustração de Judith Clay
A cultura transmite-se através da família e quando esta instituição deixa de funcionar de maneira adequada o resultado "é a deterioração da cultura". Depois da família, a principal transmissora da cultura ao longo das gerações tem sido a Igreja, e não a escola. Não se deve confundir cultura com conhecimento. "Cultura não é só a soma de diversas atividades, mas sim um estilo de vida", uma maneira de ser em que as formas são tão importantes como o conteúdo. O conhecimento tem a ver com a evolução da técnica e das ciências, e a cultura é algo anterior ao conhecimento, uma propensão do espírito, uma sensibilidade e um cultivo da forma que dá sentido e orientação aos conhecimentos.


  Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo,  Quetzal, pp. 13-14

21 de novembro de 2012

Cordão umbilical da cultura



Ilustração de Danuta Wojciechowska
Cultura e religião não são a mesma coisa, mas não são separáveis, pois a cultura nasceu dentro da religião e, embora com a evolução histórica da Humanidade se tenha vindo a afastar parcialmente dela, sempre estará unida à sua fonte nutritiva por uma espécie de cordão umbilical. A religião, "enquanto dura, e no seu próprio campo, dá um sentido aparente à vida, proporciona o enquadramento para a cultura e protege a Humanidade no seu todo do aborrecimento e do desespero".





Quando fala de religião, T.S. Eliot refere-se fundamentalmente ao cristianismo, que fez, diz ele, da Europa o que é. "As nossas artes desenvolveram-se dentro do cristianismo, as leis até há pouco tinham as suas raízes nele e foi tendo o cristianismo como fundo que o pensamento europeu se desenvolveu. Um europeu pode não acreditar que a fé cristã seja verdadeira e, no entanto, aquilo que diz, acredita e faz provém da fonte do legado cristão e depende dela o seu sentido. Só uma cultura cristã podia ter produzido Voltaire ou Nietzsche. Eu não acredito que a cultura da Europa pudesse sobreviver ao desaparecimento da fé cristã".

Mario Vargas Llosa, in A Civilização do Espetáculo (citando T.S.Eliot),  Quetzal, pp. 14-15