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20 de março de 2020

A utilidade do inútil





A utilidade do inútil, reflexões sobre a importância da filosofia, da literatura, do saber na sua dimensão mais erudita, sem uma forçosa vertente pragmática, cultivando o espírito: a dignidade humana, a curiosidade intelectual, o crescimento pessoal. O conhecimento como fonte de desenvolvimento pessoal versus o utilitarismo do estudo com vista a um desempenho profissional tout court. 

Portefólio de Leituras

14 de setembro de 2014

Os Maias, um livro filmado



Ilustração de Claude Theberge
Não é o livro que deu um excelente filme, é um filme que glorifica a excelência do livro.


O filme cria mesmo um artefacto, teatral ou operático, para destacar a palavra. Os painéis de João de Queirós da cidade de Lisboa, mas também de Santa Olávia e de Sintra, são um fabuloso detalhe artístico, que confere a todo o filme um ambiente onírico. Além disso, coloca-nos perante um palco, o que permite uma certa teatralidade e nos transporta mais facilmente para a época. Marcando também o plano literário com a narração possante de Jorge Vaz de Carvalho, Os Maias, de João Botelho, é cinema, teatro, ópera, política e literatura. Está lá tudo.

Manuel Halpern, in JL nº 1146, de 3 a 16 de setembro de 2014, p. 9




27 de novembro de 2013

Verdade e mentira

Ilustração de Toni Demuro

Não existe mentira na literatura, na ficção, e, digo-lhe mais, não existe verdade na vida real. Se perceber isto muito bem, perceberá muito mais coisas.

                                                       Afonso Cruz, in A boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 83




26 de agosto de 2013

Arte poética



Ilustração de 

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Satoshi Ota













Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?



Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 7

16 de agosto de 2013

O que é a cultura?

Ao longo da História, a noção de cultura teve diferentes significados e matizes. Durante muitos séculos foi um conceito inseparável da religião e do conhecimento teológico; na Grécia foi marcado pela filosofia e em Roma pelo direito, enquanto no Renascimento era impregnado sobretudo pela literatura e pelas artes. 



Em épocas mais recentes como o iluminismo foram a ciência e as grandes descobertas científicas que deram a orientação principal à ideia de cultura. 

Caricaturas de escritores e escritoras por Mike Caplanis

Mas, apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de fatores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 61

14 de agosto de 2013

Arte e literatura não morrem



Caricatura de Pessoa por Tullio Pericoli


A obra literária e artística que alcança um certo grau de excelência não morre com o passar do tempo: continua a viver e a enriquecer as novas gerações e evoluindo com elas.


Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p. 69

10 de agosto de 2013

Imortalidade

Desenho de Júlio Pomar





Há dois tipos de pessoas no mundo: 


as que acreditam que Pessoa morreu 

e as que o leram ainda no outro dia.

L. Ventura



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 64

5 de agosto de 2013

Arte de ladrões

Ilustração de Shiori Matsumoto


...a literatura é uma arte

escura de ladrões que roubam a ladrões


Manuel António Pina,  "Emet" in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 72

8 de maio de 2013

Literatura precisa-se


Ler, para mim, não é ler o best-seller. Ler a boa literatura será sempre uma coisa de uma minoria, aí não há grandes invenções.

Ilustração de Madalena Matoso


O que se vende é inútil, não traz nada, não acrescenta nada, essa leitura é vazia. O texto que vai ficar não se vê nas livrarias ou quando se vê é durante uma semana e desaparece. É uma situação catastrófica e por isso faz falta uma boa crítica literária.


Nuno Júdice, em entrevista a Ana Sousa Dias na Revista Ler, nº 123, abril 2013, pp.28-29

24 de abril de 2013

Pura ficção?

Ilustração de Su Blackwell

Não confundas a vida com o teatro, dissera-me Rosa; e eu ouvia as mesmas palavras na boca da historiadora ao dizer-me que não devia confundir o que nasce da investigação histórica com o que realmente se passou, numa determinada época. A história do passado, somos nós que a fazemos, e não os seus protagonistas; e eu pensava nisto como se fosse uma aberração, pondo em causa todos os livros que lemos e por onde estudámos a evolução do mundo e das sociedades. Seria tudo uma pura ficção? Então, disse-lhe, a verdadeira história está nos romances, porque aí é onde o homem projecta a sua realidade, entre o que viveu e o que sonhou, sem qualquer preocupação de construir uma cena dominada pela verosimilhança que os acontecimentos conferem ao que se escreve.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 74

27 de novembro de 2012

Nadar por correspondência




Ilustração de Monique Passicot


... ler Literatura não obedece aos mesmos esquemas mentais (e culturais) da leitura de um qualquer outro tipo de texto ou obra. Muito menos se se tratar de um jornal ou revista. O verdadeiro acto de ler (literatura) é por excelência um acto pessoal, criativo, vivo. Não é um acto passivo, maquinal, repetitivo…É um mergulho no interior do texto que acaba por nos tocar e inundar a nossa sensibilidade e ideias. A partir daqui, deste mergulho nas palavras e no ritmo das ideias e das situações, temos o prazer de exercitar a nossa imaginação e sensibilidade – que podem ser manifestadas num comentário pessoal, por escrito, ou até numa simples recriação. Se me afasto do mundo (das pessoas e das coisas) quando leio, porque ler requer isolamento e silêncio, ganho depois um pouco mais de uma outra consciência acerca desse mundo, de mim e dos outros. É justamente por isto que ler é um acto insubstituível. Ninguém, em rigor, pode ler por nós. É como dar mergulhos num rio ou numa piscina: já alguma vez alguém aprendeu a nadar por correspondência? 

Martins, Francisco, in Ao encontro de Aparição – em torno de Vergílio Ferreira, Lisboa, Asa, 1999

29 de outubro de 2012

Ler e escrever não é privilégio de alguns

Os livros deixaram de valer como segredos, são abertos a todos: assim parece. 

Ilustração de Fernando Casado Mora

Não nos deixaremos privar da reconfortante certeza de ter havido um efectivo progresso e não podemos senão comprazer-nos com o facto de ler e escrever já não serem o privilégio de uma casta ou corporação e, pelo contrário, desde a invenção dos caracteres de imprensa, de o livro se ter tornado um objecto de uso e de luxo difuso em larguíssima escala, d[e] as grandes tiragens lhe consentirem ser vendido a baixo preço e de todos os povos poderem, deste modo, tornar acessíveis os seus melhores livros (os chamados "clássicos") mesmo para as pessoas com menos posses. Nem nos afligiremos excessivamente por causa da ideia de o livro estar agora quase inteiramente despido do seu antigo carácter sublime...

Herman Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal

17 de setembro de 2012

Amar a literatura



Ilustração de Cheryl Sorg



Há que amar a literatura. Sabemos bem que o amor pode ser fugaz, intermitente, constante, frágil, imenso, ocasional, calculado, uma paixão súbita, uma paciente conquista. Amando-a, porém, é impossível não querer conhecê-la em toda a parte e em todos os tempos, em extensão e em profundidade; é impossível não querer estudá-la, para transmitir e comunicar aos outros a fascinação que ela exerce em nós; é impossível não querer vivê-la, gratuitamente e como agente, que ela é, de tudo o que constantemente se pretende que ela seja e de tudo o que ela constantemente ultrapassa em si mesmo e em nós.

Jorge de Sena

3 de setembro de 2012

Escrita e literatura

René Magritte

Hoje em dia, as pessoas pensam que a mera alfabetização é garantia suficiente para tentarem escrever. É o mesmo que pensar que para ser pintor bastam os materiais de arte. Apenas aqueles que estudaram meticulosamente a literatura podem sonhar em criar algo.

Zoran Zivkovic, in O Escritor-fantasma

23 de janeiro de 2012

O néctar da literatura

"Para se chegar a boas leituras é necessário ler de tudo até que a experiência leitora deixe a sua marca".

FERNÁNDEZ, Juan José Lage, in Animar a leer desde la biblioteca


Jeong Jong Hae
Esta é uma postura de leitura válida para quem começa a desbravar as letras ou para quem se obriga a gostar de determinado livro, autor ou estilo. Se a escola não instituísse um cânone literário, muitos perderiam na vida a oportunidade de se cruzarem com Cesário Verde, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia ou Saramago, entre muitos outros nomes maiores da literatura portuguesa. O mesmo é verdade para os autores dos cancioneiros medievais, para as crónicas de Fernão Lopes..., para tantas e tantas páginas de literatura, sem esquecer o magistral Eça, que tiveram o intuito de nos deixar provar o que é literatura, mesmo que pontualmente a possamos abandonar.

Genevieve Despres (pormenor)
Tenho as minhas dúvidas sobre se é preciso ler de tudo, aí compreendendo o banal, o fútil, o óbvio. Não será a literatura um alimento do espírito? Entender-se-ia que numa degustação de vinho se provasse todo o tipo de vinho, sem o cuidado prévio de dar a saborear os melhores aromas e sabores do precioso néctar? Assim na literatura.

9 de dezembro de 2011

Uma questão de literatura

Aprecie-se ou não José Saramago, o autor/escritor/homem, ou alguma temática ou estilo das suas obras, certo é que estamos perante páginas de literatura em As Pequenas Memórias.
La noche pasa… la lectura queda
(ilustração de Violetno)

A propriedade lexical, que consiste em nomear cada objeto ou realidade com um vocábulo preciso, compagina-se com a novidade e liberdade semânticas que o levam a associar com criatividade uma realidade já existente a outra que lhe ocorre, adaptando, por exemplo, expressões idiomáticas em “Também inutilmente se chorará o azeite derramado” (numa associação fonética de “leite” com “azeite”, remetendo para o contexto descrito dos “velhos olivais” (p.15) ou em “a minha memória de infante” (p.33), num processo de paronímia com “memória de elefante”, criando assim, pelo trocadilho, uma antítese, pois a sua memória de criança não lhe permitia alcançar ainda a prodigiosa recordação do tempo em que teriam começado as desavenças familiares.

A maestria estilística manifesta-se tão simplesmente na tripla adjetivação que revela como num balão (“aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida”) pode caber o universo onírico, fantástico de uma criança, ainda que gorado quando se esvazia (“Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo” (p.77)) ou ainda no tom coloquial que mantém com o leitor, aproximando-o das suas vivências ou retificando as suas memórias, precisando factos ou a sua sucessão: “Como acaba de se ver, não andava equivocado quando escrevi que havíamos vivido duas vezes na Rua Carrilho Videira, mas já foi o engano gravíssimo quando (…) acrescentei que estava na idade de onze anos quando do episódio com a Domitília. Nada disso. Na verdade, eu não teria mais que seis, e ela andaria pelos oito” (p.119).

Esta familiaridade com o leitor cria, de facto, por momentos, a sensação de que o narrador (ou mesmo o autor?) se nos dirige, como se nos respeitasse a ponto de retificar a informação biográfica que vai tecendo entre as páginas. Mas não será a verosimilhança tão somente mais um traço da magnitude literária da narrativa? Pouco importa que o autor de Todos os Nomes tenha tido estas ou aquelas (inúmeras) aventuras amorosas. O certo é que nos deixa presos à escrita quais bacorinhos na cama dos avós. 

Mª Carla Crespo