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30 de janeiro de 2016

Saudades


Ilustração de Claire Mojher

Não tenho saudades de mim, não tenho saudades de nada: amanhã é o dia de hoje.


Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 145

29 de janeiro de 2016

A escrita perpetua a existência

Ilustração de Raquel Marin Bo

Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.

 Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 193

28 de janeiro de 2016

Desejo de escrever

 
Ilustração de Stephanie Graegin

...o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto...


 Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 193

27 de novembro de 2012

Nadar por correspondência




Ilustração de Monique Passicot


... ler Literatura não obedece aos mesmos esquemas mentais (e culturais) da leitura de um qualquer outro tipo de texto ou obra. Muito menos se se tratar de um jornal ou revista. O verdadeiro acto de ler (literatura) é por excelência um acto pessoal, criativo, vivo. Não é um acto passivo, maquinal, repetitivo…É um mergulho no interior do texto que acaba por nos tocar e inundar a nossa sensibilidade e ideias. A partir daqui, deste mergulho nas palavras e no ritmo das ideias e das situações, temos o prazer de exercitar a nossa imaginação e sensibilidade – que podem ser manifestadas num comentário pessoal, por escrito, ou até numa simples recriação. Se me afasto do mundo (das pessoas e das coisas) quando leio, porque ler requer isolamento e silêncio, ganho depois um pouco mais de uma outra consciência acerca desse mundo, de mim e dos outros. É justamente por isto que ler é um acto insubstituível. Ninguém, em rigor, pode ler por nós. É como dar mergulhos num rio ou numa piscina: já alguma vez alguém aprendeu a nadar por correspondência? 

Martins, Francisco, in Ao encontro de Aparição – em torno de Vergílio Ferreira, Lisboa, Asa, 1999

26 de novembro de 2012

Olhar reflexivo



Ilustração de Katsuo

E todavia, agora que me descubro vivo, agora que me penso, me sinto, me projecto nesta noite de vento, de estrelas, agora que me sei desde uma distância infinita, me reconheço não limitado por nada mas presente a mim próprio como se fosse o próprio mundo que sou eu, agora nada entendo da minha contingência. 

Como pensar que «eu poderia não existir»? Quando digo «eu», já estou vivo... Como entender que esta iluminação que sou eu, esta evidência axiomática que é a minha presença a mim próprio, esta fulguração sem princípio que é eu estar sendo, como entender que pudesse «não existir»? Como pensar que é nada? 

A minha vida é eterna porque é só a presença dela a si própria, é a sua evidente necessidade, é ser eu, EU, esta brutal iluminação de mim e do mundo, puro acto de me ver em mim, este SER que irradia desde o seu mais longínquo jacto de aparição, este SER-SER que me fascina e às vezes me angustia de terror... E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim...



Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ª ed., p. 50

Fruto do acaso



Ilustração de Francesca Dafne Vignana



Eis-me aqui escrevendo pela noite fora, devastado de Inverno. Eis-me procurando a verdade primitiva de mim, verdade não contaminada ainda da indiferença. Mas onde esse sobressalto de um homem jogado à vida no acaso infinitesimal do universo? Se meu pai não tivesse conhecido minha mãe; se os pais de ambos se não tivessem conhecido; se há cem anos, há mil anos, há milhares e milhares de anos um certo homem não tivesse conhecido certa mulher; se... Nesta cadeia de biliões e biliões de acasos, eis que um homem surge à face da Terra, elo perdido entre a infinidade de elos, de encruzilhadas - e esse homem sou eu...

Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ª ed., pp. 49-50