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10 de agosto de 2015

Os meus livros não são livros



Ilustração de Noemí Villamuza



Os meus livros não são livros, mas folhas separadas e caídas por acaso nas estradas da minha vida.

 Chateaubriant

18 de junho de 2015

Não ler

Ilustração de Yuri Kuznetsov

Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos.

Valter Hugo Mãe, in A desumanização

30 de junho de 2014

...se leio?

Ilustração de 孟楠楠


Que mais quero ver, 

se leio?


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 161

29 de junho de 2014

Ler infinitamente

A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. (...)


Ilustração de Siegfried Linke


Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia a dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. 



Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 160

27 de junho de 2014

Desejo ler horas a fio

Jodoigne, 3 de Março de 1976.


Ilustração de Amber Alexander

Desejo ler horas a fio (o que também consta do ideograma), ler horas e horas sem me levantar. Rodeada de livros, basta estender a mão ou, mais simplesmente ainda, baixar os olhos. Leio algumas páginas e sinto que o que leio me atinge de maneira tão directa e íntima que está naquele momento sendo escrito, e me constrange a devolver-lhe uma resposta; o quarto fica cheio de leitura e da escrita que decorreu; pergunto então a mim mesma, vendo gnomos a transportar pauzinhos e folhas (...) se a escrita tem passado.

                                                      Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, pp. 121-122


30 de janeiro de 2014

Nascer de novo

Ilustração de Su Blackwel


Não te sei descrever o que senti quando aprendi a ler e a escrever. Era como se tivesse nascido novamente e com poderes especiais.


 Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 115

18 de outubro de 2013

Compaixão

Ilustração de Patrice Barton
Nunca antes tinha tocado a mão de outro homem. A mão do homem apertou a mão do Sábio com toda a força, e o Sábio sentiu uma impressão estranha no coração, como se o seu coração tivesse ficado de repente mais pequeno. E então recordou que lera há muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixão, e percebeu que o seu coração estava cheio de compaixão. Apertou também ele a mão do homem e disse-lhe:

SÁBIO – Tem coragem. Conheço todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento. 

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 34

10 de outubro de 2013

Que dupla!

Ilustração de Yusuke Yonezu


O que nós gostávamos de o assustar, para ter o prazer de o consolar! E como ele exigia esse pavor! Não era nada tolo, e no entanto tremia. Era esta a dupla que então formávamos: ele, o leitor - espertalhão! -, e nós, o livro - muito cúmplice!


Daniel Pennac, in Como um romance, Asa

28 de setembro de 2013

Eleições

Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.
O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.
Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.
Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes,  todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.

Ilustração de Sophie Blackal

Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.

                                Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p.28

27 de setembro de 2013

Compreender um escritor


Ilustração de Deborah Dewit 


Só mostro que compreendi um escritor quando puder actuar dentro do seu espírito, quando o conseguir traduzir e alterar de diversas maneiras, sem reduzir a sua individualidade.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 

Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 31

18 de setembro de 2013

O velho que lia romances de amor (2)


Ilustração de André Letria

O velho recebeu os livros, examinou as capas e declarou que gostava. 


Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p. 26

17 de setembro de 2013

O velho que lia romances de amor (1)





- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.

Os olhos do velho iluminaram-se.

- De amor?

O dentista fez que sim.

Antonio José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.

- São tristes? - perguntava o velho.

- De chorar rios de lágrimas - garantia o dentista.

- Com pessoas que se amam mesmo?
 
- Como ninguém nunca amou.

- Sofrem muito?

- Eu quase não consegui suportar - respondia o dentista.

Mas o doutor Rubicundo Loachamín não lia os romances.

Quando o velho Lhe pediu o favor de lhe trazer leitura, indicando muito claramente as suas preferências - sofrimentos, amores infelizes e desfechos felizes -, o dentista sentiu que estava perante um encargo difícil de cumprir.

Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., pp. 24-25 

17 de junho de 2013

Direitos inalienáveis do leitor



              Ilustração de Katherine Quinn


1. O direito de não ler
2. O direito de saltar páginas
3. O direito de não acabar um livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler não importa o quê
6. O direito de amar os heróis dos romances
7. O direito de ler não importa onde
8. O direito de saltar de livro em livro
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de não falar do que se leu


Daniel Pennac, in Como um romance

9 de abril de 2013

Ler é bom!


Ilustrações de
Nathalie Jomard

...ter os pés soerguidos é a primeira condição para desfrutar da leitura.


Italo Calvino, in Se numa noite de Inverno um viajante

12 de janeiro de 2013

O tempo do inútil



O tempo de ler associa-se ao tempo de lazer mas também ao não tempo, que é o tempo de Deus. O tempo do inútil, do “desútil”, como refere o poeta brasileiro Manoel de Barros, ou seja, de um tempo mais para ser do que para fazer, um tempo por vezes difícil de encontrar e de nos concedermos mas que, quando no-lo concedemos, nos amplia o olhar e o coração, cava o silêncio que germina em nós e nos purifica. Ler é, pois, também ler-nos, ler a nossa própria história, quer por identificação quer por contraste com personagens, vivências, locais, cores, culturas, aromas, civilizações, hábitos e costumes. O tempo e o espaço transportam-nos para outros lugares e para lugar nenhum, para a utopia, o sonho, a irrealidade, um espaço de liberdade e de imaginação, espaço de narrativas que nos oferecem um tempo gratuito, de fruição ou de aprendizagem. De encontro ou de ilusão. De simpatia ou de transporte para outras realidades diferentes das do quotidiano.

Ilustrações de Glenda Sburelin

Os livros são ponte para a “teologia da inutilidade”, de que nos fala Tolentino Mendonça, para o lugar da estética, da poesia, da reflexão, do sem porquê, como a rosa ou o brinquedo.,

Maria Carla Crespo

27 de novembro de 2012

Nadar por correspondência




Ilustração de Monique Passicot


... ler Literatura não obedece aos mesmos esquemas mentais (e culturais) da leitura de um qualquer outro tipo de texto ou obra. Muito menos se se tratar de um jornal ou revista. O verdadeiro acto de ler (literatura) é por excelência um acto pessoal, criativo, vivo. Não é um acto passivo, maquinal, repetitivo…É um mergulho no interior do texto que acaba por nos tocar e inundar a nossa sensibilidade e ideias. A partir daqui, deste mergulho nas palavras e no ritmo das ideias e das situações, temos o prazer de exercitar a nossa imaginação e sensibilidade – que podem ser manifestadas num comentário pessoal, por escrito, ou até numa simples recriação. Se me afasto do mundo (das pessoas e das coisas) quando leio, porque ler requer isolamento e silêncio, ganho depois um pouco mais de uma outra consciência acerca desse mundo, de mim e dos outros. É justamente por isto que ler é um acto insubstituível. Ninguém, em rigor, pode ler por nós. É como dar mergulhos num rio ou numa piscina: já alguma vez alguém aprendeu a nadar por correspondência? 

Martins, Francisco, in Ao encontro de Aparição – em torno de Vergílio Ferreira, Lisboa, Asa, 1999