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16 de abril de 2020

A intensidade da vida


Ilustração de Jimmy Liao

...o tempo (...) longo ou breve, isso não tem importância porque a vida se mede pela intensidade com que é vivida...

Luís Sepúlveda, in História de um gato e de um rato que se tornaram amigos

28 de setembro de 2013

Eleições

Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.
O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.
Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.
Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes,  todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.

Ilustração de Sophie Blackal

Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.

                                Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p.28

18 de setembro de 2013

O velho que lia romances de amor (2)


Ilustração de André Letria

O velho recebeu os livros, examinou as capas e declarou que gostava. 


Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p. 26

17 de setembro de 2013

O velho que lia romances de amor (1)





- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.

Os olhos do velho iluminaram-se.

- De amor?

O dentista fez que sim.

Antonio José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.

- São tristes? - perguntava o velho.

- De chorar rios de lágrimas - garantia o dentista.

- Com pessoas que se amam mesmo?
 
- Como ninguém nunca amou.

- Sofrem muito?

- Eu quase não consegui suportar - respondia o dentista.

Mas o doutor Rubicundo Loachamín não lia os romances.

Quando o velho Lhe pediu o favor de lhe trazer leitura, indicando muito claramente as suas preferências - sofrimentos, amores infelizes e desfechos felizes -, o dentista sentiu que estava perante um encargo difícil de cumprir.

Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., pp. 24-25 

23 de maio de 2013

Sempre gostei de gatos

Sempre gostei de gatos. Gosto de todos os animais, mas com os gatos tenho uma relação especial. 

Ilustração de Paulo Galindro
Há muitos anos, conheci um astrólogo chinês e, embora não creia nos que preveem o futuro, porque sei que cada pessoa é responsável pelo seu destino e cada destino está cheio de surpresas, aceitei que fizesse o meu mapa astral. Depois de me perguntar o local de nascimento, a hora e o dia, desenhou um estranho mapa cheio de símbolos e cálculos misteriosos, ficou meditativo durante algum tempo, e disse finalmente: "Numa das tuas vidas passadas foste um gato feliz, porque eras o gato de um mandarim".

Luis Sepúlveda, prefácio de História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, Porto Editora

14 de janeiro de 2013

Se quisermos, podemos voar

Ilustração de Kristin Kwan
Em História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luís Sepúlveda, Zorbas e os restantes gatos do porto, quando se rendem à sua impotência para ensinarem a gaivota a voar, escolhem um humano para os ajudar nessa tarefa. 

Após várias tentativas, decidem-se por um poeta, porque o poeta é alguém que voa com as palavras.

A mensagem da obra é sublime: se quisermos, podemos voar.