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18 de março de 2020

Ilustração de Michael Creese

Não sei pensar sem a escrita. Ama-se como sem ela?

Ana Marques Gastão, in Lápis mínimo

29 de janeiro de 2016

A escrita perpetua a existência

Ilustração de Raquel Marin Bo

Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.

 Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 193

28 de janeiro de 2016

Desejo de escrever

 
Ilustração de Stephanie Graegin

...o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto...


 Vergílio Ferreira, in Aparição, Bertrand, 2000, 54ªed., p. 193

25 de maio de 2015

Arte(s) poética(s)

Ilustração de Bella Sinclair


em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                           ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                           e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                          a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                                    estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                              sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                        sua própria profundidade


Herberto Helder, in Poemas Canhotos, Porto Editora, 2015, pp. 18-19

30 de dezembro de 2014

Criar o leitor

Ilustração de Shinya Okayama

Cada palavra pronunciada supõe o ouvinte, cada palavra escrita o leitor: criar também este é a parte encoberta, mas a mais importante da acção do escritor.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

25 de junho de 2014

O livro como memória


Jodoigne, 20 de Abril de 1975.

Ilustração de Leonard Tsuguharu Foujita

O livro não é, para mim, o objecto rápido de uma leitura: dissimula um mútuo: uma época e alguém. «J'écris pour prendre la parole au nom de mes ancêtres qui se sont tus». __________ Liliane Wouters. 

Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 45

21 de abril de 2014

A vida e a escrita

Ilustração de Laimonas Smergelis




A vida não nos chama de uma maneira só, chama-nos com vozes diferentes que são no fundo a única voz. A escrita é uma espécie de ponte, funciona como uma espécie de resíduo, um lugar, por onde tudo passa e algumas coisas ficam.


Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 20

13 de abril de 2014

Que trabalho

Ilustração de Luís Silva


Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

8 de março de 2014

Escrita do poema


 
Ilustração de Catherine Zarip


A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 523

7 de março de 2014

Em poucas linhas de papel


Ilustração de Luís Silva

Em poucas linhas de papel

o voo do génio infinito. 




Em poucas linhas de papel

todos os limites ultrapassados.   




Em poucas linhas de papel

a conquista universal do pensamento.       




Em todas as linhas de papel

sempre o génio encarcerado.


               
         Teobaldo Virgínio, poeta cabo-verdiano

29 de junho de 2013

Injustiça



Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss

Aquilo que me instiga a trabalhar é sempre a percepção de uma injustiça, e a ideia de que é fundamental tomar partido. Quando decido escrever um livro, não digo a mim mesmo: Vou produzir uma obra de arte. Escrevo porque há uma mentira que desejo denunciar, um facto que pretendo destacar, e a minha preocupação primeira é de me fazer ouvir.

George Orwell, Why I write, 1946

7 de maio de 2013

Sem pagar bilhete



Ilustração de James Fenner


Escrevo para viajar. Graças à escrita, viajo sem pagar bilhete.


Miguel Miranda, médico e escritor

Congresso Bibliotecando em Tomar 
3 de maio de 2013

18 de janeiro de 2013

Escrita e memória

Ilustração de André Letria


O recurso à escrita debilita o poder da memória. Aquilo que fica escrito e que, portanto, pode ser armazenado (...) já não precisa de ser confiado à memória. Cultura oral é aquela que constantemente reactualiza as memórias; um texto, ou uma cultura do livro, autoriza (...) todas as formas de esquecimento.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros 

12 de dezembro de 2012

A frase

Uma tristeza canta debaixo de água. Uma tristeza azul, uma tristeza negra. Uma tristeza canta debaixo de água.

Ilustração de Lucile Gomez

Esta é a frase. Eu sou a frase em busca de uma história. Não digo de autor porque estou na cabeça dele sem ele saber porquê.


Manuel Alegre, in O Quadrado, D. Quixote 

1 de dezembro de 2012

Sobre o mar

Ilustração de Lirios Jordá





Sobre o mar
a mão escreve. Como se escrever  
servisse para diminuir o erro.
Escreve
num país atravessado a prumo
pelo delírio.
País despossuído. O voo rasteiro
e curto. De muro em muro.

Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

5 de novembro de 2012

Escrita

Ilustração de Simon Corry
Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.

Cristina Campo, in Os imperdoáveis

7 de agosto de 2012

Poética



Ilustração de Anna Emilia

 Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão mais implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento

 
 Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante

E isso é tudo o que nos resta

Tolentino Mendonça

15 de julho de 2012

Escrever para ninguém

Ilustração de Gonçalo Viana

Quem escreve, escreve para ninguém. Ou pelo menos não diz, não quer, não sabe para quem escreve. É uma cadência. Cá está: a flauta secreta das palavras.

Manuel Alegre, " A Carta", in O Quadrado

14 de maio de 2012

Escrevo para ser


Ilustração de Ford Smith
Fecho o álbum, acendo um cigarro. Para lá da janela atinjo a linha azul do horizonte que se desvanece na tarde. Penso, penso. Não, não penso, procuro. Outra vez, outra vez. Não, não quero “saber”, sei já há tanto tempo…Mas nenhum saber conserva a força que estala no que é aparição. Porque o escrevo de novo? A verdade é que nada mais me importa. E todavia, um estranho absurdo me ameaça: quero saber, ter, e uma aparição não se tem, porque não seria aparecer, seria estar, seria petrificar-se. Queria que a evidência me ficasse fulminante, aguda, com a sua sufocação, e aí, na angústia, eu criasse a minha vida, a reformasse. Mas uma reforma, uma regulamentação é já do lado de fora. Quem é fiel a uma certeza e a pode ver quando lhe apetece? (…) Não escrevo para ninguém, talvez, talvez: e escreverei sequer para mim? O que me arrasta ao longo destas noites (…), o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte. Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.
Fecho o álbum, acendo um cigarro. 

Vergílio Ferreira, Aparição, Ed. Bertrand, Cap. XVII