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19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

24 de fevereiro de 2014

Mesmo que faça frio...

Ilustração de Silvano Braido 


Mesmo que faça frio

não aproximes do fogo

um coração de neve



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 89

22 de novembro de 2013

Frio

Ilustração de Gobugi Paper

Aquele dia era um casaco aberto ao frio.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010,p. 75

31 de dezembro de 2012

A menina dos fósforos

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.


Ilustrações de Serena Curmi
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal.






Hans Christian Andersen, A menina dos fósforos (adapt.) 

29 de dezembro de 2012

A trote

Ilustração de Joysuke Wong
E assim, mesmo quando saía do seu recanto para se aquecer num dia húmido, Toby trotava. Desenhando no lodo com os sapatos furados uma linha irregular de pegadas lamacentas; soprando e esfregando as mãos enregeladas, escassamente defendidas do frio cortante com umas luvas puídas de lã cinzenta, das que somente têm um dedo para o polegar - Toby, com os joelhos arqueados e a bengala debaixo do braço, lá seguia trotando. Ao sair para a estrada, a fim de olhar a torre onde os Carrilhões badalavam, Toby continuava a trotar.

Charles Dickens, "Os Carrilhões", in Contos de Natal

Granizo em festa

Ilustração de Irene Owens

...os dias de vento, geada, neve e talvez uma violenta bátega de granizo eram dias de festa para Toby Veck.


Charles Dickens, "Os Carrilhões", in Contos de Natal

21 de dezembro de 2012

Natal e não dezembro



Ilustração de Eva Vásquez
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal