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25 de janeiro de 2013

Nus

Ilustração de Mariana Kalacheva

Como é que tão depressa ficámos nus diante do lume? Há meses e meses que  nos não víamos. Não esperava sequer voltar a ver-te. 

(...) - e num instante nos encontrámos nos braços um do outro, confundidos e mergulhados um no outro, como se nada mais existisse em todo o mundo.


David Mourão-Ferreira, "Os Amantes", in Os Amantes e outros contos 


29 de dezembro de 2012

A trote

Ilustração de Joysuke Wong
E assim, mesmo quando saía do seu recanto para se aquecer num dia húmido, Toby trotava. Desenhando no lodo com os sapatos furados uma linha irregular de pegadas lamacentas; soprando e esfregando as mãos enregeladas, escassamente defendidas do frio cortante com umas luvas puídas de lã cinzenta, das que somente têm um dedo para o polegar - Toby, com os joelhos arqueados e a bengala debaixo do braço, lá seguia trotando. Ao sair para a estrada, a fim de olhar a torre onde os Carrilhões badalavam, Toby continuava a trotar.

Charles Dickens, "Os Carrilhões", in Contos de Natal

Granizo em festa

Ilustração de Irene Owens

...os dias de vento, geada, neve e talvez uma violenta bátega de granizo eram dias de festa para Toby Veck.


Charles Dickens, "Os Carrilhões", in Contos de Natal

27 de dezembro de 2012

Contemplação dos sinos

...Toby atribuía aos Sinos um carácter estranho e solene. Eram tão misteriosos, ouviam-se com tanta frequência sem jamais se verem, achavam-se suspensos lá tão no alto, tão distantes, tão cheios de melancolia que ele os contemplava com uma espécie de temor respeitoso.
 
 
Ilustração de Aki
Em resumo, os sinos ressoavam-lhe constantemente nos ouvidos e ocupavam-lhe o pensamento, mas sempre os tivera na melhor consideração.
 

Charles Dickens, "Os Carrilhões", in Contos de Natal

26 de dezembro de 2012

Carrilhões

Ilustração de Redgella Deviantart
 
 
No cimo  da torre duma velha igreja, muito além das luzes e rumores da cidade, muito aquém das nuvens flutuantes que a cobrem de sombra, a noite é agreste e tenebrosa. Pois era no cimo da torre duma velha igreja que moravam os Carrilhões de que vou falar.
 
 
Charles Dickens, "Os Carrilhões", in Contos de Natal 

20 de dezembro de 2012

Espuma da tarde

Ilustração de Rafal Olbinski

 
A janelinha tinha sido feita para abrir sobre um quintal, demasiado fundo para um salto, mas onde havia um limoeiro. O limoeiro abriu os braços e disse-me vem. Não ouvi mais nada, pois nessa altura já eu lá estava de costas num regaço de folhas, puas e limões. O que me acontecia parecia uma carícia e nem doeu nem sangrou.

 
Lídia Jorge, "Espuma da tarde", in Marido e outros contos



19 de dezembro de 2012

Mulheres

Akzhana Abdalieva



Sem se saber porquê, a percentagem de mulheres belas, até uma certa idade, é superior à dos homens. Há as esguias como bambus, há as doces como se paradas, e há as curvas como estradas de montanha. Cada uma com o seu encanto. É só preciso olhar, nem é preciso descobrir. E depois há as feias. 

                                                                 
Lídia Jorge, "António", in Marido e outros contos, Dom Quixote

Nudez especial

Ilustração de Annette Mangseth

 As mulheres sentem uma nudez especial  na cabeça ensaboada.

Lídia Jorge, "António", in Marido e outros contos, Dom Quixote

27 de outubro de 2012

O relógio da vida


Ilustração de Laimonas Smergelis


 - Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira?
- Nunca reparei – disse a rapariga.
- Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
- Sim, já fiquei.
- Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
- E que queres dizer com isso?
- Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
- Sim, sim.
- Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é preciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
- Mas que é que querias dizer-me?
- Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.

(...)
Ilustração de Laimonas Smergelis
 

- O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia a dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia a dia. E três meses no máximo.
- Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. (...)

Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.

Vergílio Ferreira, "Uma esplanada sobre o mar", in Contos