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25 de maio de 2015

Arte(s) poética(s)

Ilustração de Bella Sinclair


em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                           ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                           e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                          a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                                    estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                              sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                        sua própria profundidade


Herberto Helder, in Poemas Canhotos, Porto Editora, 2015, pp. 18-19

18 de maio de 2015

A amada nas altas montanhas


Ilustração de Bella Sinclair

a amada nas altas montanhas
o amador ao rés das águas




Ilustração de Chichi Huang



Herberto Helder, in Poemas canhotos, Porto Editora, 20015, p. 7


31 de março de 2015

É preciso falar baixo no sítio da primavera

Ilustração de Jennifer Lambein


É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios,
a lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da terra nocturna.


Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
(...)

Ilustração de Claire Robertson

A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.
Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.

Ilustração de Erin Hogan

Herberto Helder, in Ou o poema contínuo

30 de março de 2015

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

Noite estrelada, de Van Gogh

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Campo de trigo com corvos, de Van Gogh


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.


A sesta, de Van Gogh


Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


Pintura de Van Gogh






que te procuram.


Herberto Helder


25 de março de 2015

A grandeza primeira

Ilustração de Alenka Sottler


e eis súbito ouço num transporte público:

as luzes todas acesas e ninguém dentro da casa:

sete ou nove metros de labaredas,

e nem um grito, um sussurro, uma palavra:

só a casa ocupada pela grandeza da estrela,

a grandeza primeira


Herberto Helder, in Servidões, Assírio&Alvim, 2013, 1ª ed. p. 39 

9 de junho de 2013

Nó livre


Ilustração de Limeunhee




cada lenço de seda que se ata ¡oh desastres das artes! a
                                           própria seda do lenço o desata




Herberto Helder (2013), in Servidões, Assírio & Alvim, p. 71

31 de maio de 2013

As músicas do verso

Ilustração de Eva Vázquez

ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas     
                                                                         do verso livre  
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte

Herberto Helder, in Servidões, Assírio & Alvim

29 de maio de 2013

nada pode ser mais complexo que um poema

Ilustração de Marten Tonnis

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora


Herberto Helder (2013), in Servidões, Assírio & Alvim, p. 62