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4 de agosto de 2015

Os amigos


 
Ilustração de Angela Morgan

Voltar ali onde

 A verde rebentação da vaga

 A espuma o nevoeiro o horizonte a praia

 Guardam intacta a impetuosa

 Juventude antiga -

 Mas como sem os amigos

 Sem a partilha o abraço a comunhão

 Respirar o cheiro a alga da maresia

 E colher a estrela do mar em minha mão



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Musa

29 de junho de 2015

Dios quiso que la tierra fuese toda una

Ilustração de Raffaele Conte
 

Dios quiere, el hombre sueña, la obra nace. 
Dios quiso que la tierra fuese toda una,
que el mar uniese, ya no separase.

Consagróte, y fuiste desvelando la espuma,


y la orla blanca fue de isla en continente,
clareó, corriendo, hasta el fin del mundo,
y vióse la tierra entera, de repente,
surgir, redonda, del azul profundo.


Quien te consagró te creó portugués.
Del mar y de nosotros en ti nos dio señal.
Cumplióse el Mar, y el Imperio se deshizo.
¿Señor, falta por cumplirse Portugal!



Fernando Pessoa, "El Infante" in Mensagem (trad.)

28 de junho de 2015

Dieu veut, l’homme rêve, l’oeuvre naît

Ilustração de Raffaele Conte

Dieu veut, l’homme rêve, l’oeuvre naît,

Dieu voulu que la terre fût une seule

Que la mer unît, qu’elle ne la séparât jamais


Fernando Pessoa, in "L'infant", Mensagem (trad.)

27 de junho de 2015

O Infante

Ilustração de Raffaele Conte


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.


E a orla branca foi de ilha em continente,
 

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Fernando Pessoa, in Mensagem

26 de março de 2015

As minhas mãos

Ilustração de Duy Huynh

As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra poética I

1 de fevereiro de 2015

Deserto

Ilustração de Fabio Rex

O deserto é uma praia que, por melancolia, se afastou do mar.

(Malgorzata Zajac)


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p.

30 de janeiro de 2015

Búzios

Ilustração de Redmer Hoekstra



Encosto o ouvido ao mar para ouvir o barulho dos búzios.

(Piotr Korzhev)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 77


29 de janeiro de 2015

Vida

Ilustração de Bobby Chiu

A coisa mais difícil de navegar é a vida.
Não é o mar.

(Malgorzata Zajac)


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 177

27 de janeiro de 2015

É muito difícil para elas, para as palavras...

7 Ando pela casa em silêncio, porque as palavras, com a tristeza, ficam sozinhas, a deambular pela nossa cabeça, perdidas, sem saber para onde ir, as palavras emagrecem, definham, já não sabem o que significam, a palavra exultar pode transformar-se na palavra unhas, a palavra vida pode transformar-se na palavra rato, a palavra riqueza pode transformar-se na palavra sobras, a palavra felicidade pode transformar-se na palavra longe, a palavra infelicidade pode transformar-se na palavra costume. 

Ilustração de John Lendis

8 É muito difícil para elas, para as palavras, quando há muita aflição e ranger de dentes.

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 22

14 de agosto de 2014

14 de Agosto

Ilustração de Keiko Shibata 


Na praia, o horizonte é uma linha recta de mar.

Afonso Cruz, "14 de Agosto", in O livro do ano, Editora Objectiva, 2013, 1ª ed., p.68 

2 de julho de 2014

Harpa

Ilustração de Aimee Sicuro

A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa

E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e outros poemas 

in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 823

1 de julho de 2014

O arco das espumas


Ilustração de RosArt

O mar rolou as suas ondas negras


Sobre as praias tocadas de infinito.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 282

6 de abril de 2014

Como o rumor


Ilustração de Marie Cardouat 

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial objecto


Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 609

12 de janeiro de 2014

As gaivotas

Ilustração de Alice Tams 


As gaivotas. Vão e vêm. Entram

pela pupila.

Devagar, também os barcos entram.

Por fim o mar.

Não tardará a fadiga da alma.

De tanto olhar, tanto

olhar.

Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer

16 de setembro de 2013

Mar...


Ilustração de Monica Armiño


Agora o mar lambia a areia mesmo em frente da esplanada.


Lídia Jorge, "Espuma da tarde", in Marido e outros contos, D. Quixote, 2008, 5ª ed., p.65

14 de setembro de 2013

O conto do nadador

Ilustração de Alexandra Gallant



Então aguardaram pelo dia seguinte. Era um final de Agosto quente como não havia memória de semelhante. Os veraneantes costumavam sair de noite das exíguas casas dos pescadores e deitar-se ao relento, olhando as estrelas. Contudo, durante certa madrugada, muitos dos hóspedes tinham sido obrigados a recolher aos quartos onde sempre cheirava a polvo e a peixe seco. 












Aquela noite havia trazido mudança. O vento tinha passado a sudoeste e a maré alterosa havia batido com força no pequeno bar da praia. O dono do Hotel Paraíso lembra-se. O banho do meio-dia das raparigas tinha envolvido gritos altos, braços no ar como nunca antes. Os mailots ameaçavam rasgar-se. A areia havia-se introduzido por todas as costuras. A que escrevia cartas tinha saído de água com pedras entre os seios. 

Ilustração de Rebecca Kinkead

O mar permanecia quente, e a areia, escurecida pelo sol, abria-se em línguas por onde escorria água em regatos que alcançavam as ondas. De repente, calor e vento, unidos, faziam-se agrestes. Deveriam as raparigas, de tarde, passear naquele areal sem fim, onde costumava encontrar-se o homem do toalhão encarnado?


Lídia Jorge, "O conto do nadador", in Marido e outros contos, D. Quixote, 2008, 5ª ed., p. 134 


12 de setembro de 2013

A espuma das ondas



Ilustração de Katya Dudnik

A espuma das ondas, batendo ora mais à direita ora mais à esquerda, entornava-se como se derramada pela borda de gigantesca bacia, e era aí, na espuma, que ele estava, correndo de um lado para o outro, indo e vindo, como se tivesse traçado um limite na terra que só ele via. O que pensar de tudo quanto estava a suceder?


Lídia Jorge, "Espuma da tarde", in Marido e outros contos, D. Quixote, 2008, 5ª ed., pp.69-70

20 de agosto de 2013

No mar passa de onda em onda repetido

Ilustração de Alexandra Boiger 

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.

                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido

18 de julho de 2013

O desejo

Ilustração de Mariana Kalacheva

O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

21 de junho de 2013

Nada

Ilustração de Yvonne Zomerdijk

Nada, nem sequer o verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.

Eugénio de Andrade, in O sal da língua