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19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94

11 de março de 2015

O valor perfectivo das palavras

- (...) As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. 

Ilustração de Satoshi Ota

Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são  as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território.  A palavra porta abre e fecha; e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou afoga-nos. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há  a palavra mar que afunda todos os navios.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 46 

27 de janeiro de 2015

É muito difícil para elas, para as palavras...

7 Ando pela casa em silêncio, porque as palavras, com a tristeza, ficam sozinhas, a deambular pela nossa cabeça, perdidas, sem saber para onde ir, as palavras emagrecem, definham, já não sabem o que significam, a palavra exultar pode transformar-se na palavra unhas, a palavra vida pode transformar-se na palavra rato, a palavra riqueza pode transformar-se na palavra sobras, a palavra felicidade pode transformar-se na palavra longe, a palavra infelicidade pode transformar-se na palavra costume. 

Ilustração de John Lendis

8 É muito difícil para elas, para as palavras, quando há muita aflição e ranger de dentes.

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 22

17 de janeiro de 2015

O estômago da cabeça

Ilustração de Sandrine Kao

- Há muitos tipos de comida - disse o coronel Möller enquanto abanava o filho. - Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. 

Ilustração de Lirios Bou

E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 20

15 de dezembro de 2014

O que valem as palavras

As mesmas palavras (ex., um homem diz à sua mulher: amo-vos) podem ser vulgares ou extraordinárias, segundo o modo como são pronunciadas. E este modo depende da profundidade da região do ser de onde procedem, sem que a vontade possa fazer algo contra isso. 

Ilustração de Lyudmila Romanova 

E, por meio de uma harmonia maravilhosa, vão tocar, naquele que escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tiver discernimento, o que valem aquelas palavras.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 70  

12 de abril de 2014

A visita do príncipe

Nunca sei o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender. 

Ilustração de Eszter Schall 
Hoje ao levantar da névoa trouxeram-me a casa sobre o rio, o terraço escassamente iluminado por um lampião que balançava ao vento, o pequeno sapo que todas as noites, rente ao muro, se ia aproximando , depositário de tudo o que nesse tempo em mim se confundia com a ternura. Pequeno príncipe da vadiagem, por ali se quedava sem outro fito que não fosse o de receber alguma carícia, so depois regressando por entre a humidade das pedras aos pântanos da sombra, a noite inteira nos olhos desmedidos. 

Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba, Asa, 2002, 3ª ed., p. 17

15 de março de 2014

Que é das palavras?

Ilustração de Marie Desbons



Que é das palavras? Como chamar

por quem as esconde se, sem elas,

nem o silêncio tem nome?


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 144

6 de fevereiro de 2014

Há palavras que nos beijam

Ilustração de Marina Anaya


Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

14 de janeiro de 2014

Reciclagem verbal

Ilustração de Afonso Cruz


Comunicou-me a pessoa do 8A: Aproveito o lixo para fazer coisas novas, como candeeiros, canteiros, lavatórios e muito mais, que é assim que o universo faz as coisas. Por exemplo, com a palavra lama podemos fazer a palavra alma.
Parece magia, comuniquei eu. Mostre-me as suas mãos.

Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 16  

10 de novembro de 2013

Adeus

Ilustração de Sasha Ivoilova




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro 
nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes 
verdes. 
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um 
aquário, 
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro

13 de outubro de 2013

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada




Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!


Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.


António Ramos Rosa, Ciclo do Cavalo, in A Palavra e o Lugar, D. Quixote


4 de julho de 2013

Teclas de poesia

Ilustração de Akira Kusaka

O poeta utiliza as coisas e as palavras como teclas e toda a poesia repousa sobre uma activa associação de ideias - uma espontânea, deliberada e ideal produção do acaso.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p.111

24 de junho de 2013

São João e os solstícios

Ilustração de Young Ju Choi

S. João Baptista é santo austero, dado aos jejuns e às orações mais do que a euforias. Mas diz a lenda que saltou de alegria na barriga de Isabel à aproximação de Maria, mãe de Jesus. A Igreja dividiu entre os dois, João e Jesus, as festas solsticiais: a João o solstício de Verão, quando o Sol, no zénite, inicia o longo declínio para a obscuridade; a Jesus o de Inverno, quando o ciclo solar se torna de novo ascendente, e os dias crescem, cada vez mais limpos e luminosos. João, testemunha de Jesus, não foi que disse: "É preciso que ele cresça e que eu diminua"?

Manuel António Pina, "A noite unânime" in Crónica, saudade da literatura, p. 183

19 de junho de 2013

É o que tenho, palavras...

Ilustração de Katherine Quinn

Pouca coisa são as palavras. No entanto é o que tenho, palavras. E memórias, também elas feitas e desfeitas de palavras.

Manuel António Pina, "A noite unânime" in Crónica, saudade da literatura, p. 183

6 de dezembro de 2012

Quase nada

Ilustração de Kelly Dyson
O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança. 
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade, in Primeiros Poemas

16 de setembro de 2012

Não sei nada

Ilustração de byggstudio.com

 
Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura. 

Ilustração de Bastin Marjolein

Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como não sei.

Ruy Belo, "Imagens vindas dos dias", in Todos os poemas, Assírio & Alvim

24 de agosto de 2012

Texto para uso didáctico


Assim, o que um poeta
faz com as palavras, ao
tocá-las com os dedos,
não é só
Ilustração de Joysuke Wong
o que o músico faz com os sons   
ou o pintor com as cores.
As palavras,
cuja composição espessa cimenta
o cérebro e lhe dá peso,
não se reduzem às matérias visual
e acústica respectiva-
mente da cor e do som.
A queda desamparada
do sentido para dentro de um
pequeno espaço de escrita,
assim como a súbita relação
estabelecida entre esse facto
e a minha consciência dele, desde logo
ampliam o horizonte expressivo
do poema.
E se o raciocínio e o gesto, em parte,
não entram nele,
não quer isto dizer que uma (outra)
razão, talvez mais profunda,
o inspire e penetre.
É que ela não se manifesta
expressamente pois, pelo contrário,
só no seu aspecto oculto
e “longínquo” se revela
- imediatamente -
o Poético.       
Nuno Júdice

19 de agosto de 2012

A pressão dos mercados



Ilustração de Paulo Galindro

Emprestem-me as palavras do poema; ou dêem-me
sílabas ao desbarato, para que as ponha a render 
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?


É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.

E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? Que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba - o ar -
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

14 de julho de 2012

As poucas palavras

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Ilustração de Elena Prikhodko
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

 
Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

 
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.
 
Eugénio de Andrade, in Os sulcos da sede