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16 de março de 2015

Serão tristes as oliveiras?

Aquela senhora que conheci no comboio, olhando pela janela, disse-me a certa altura que a oliveira é uma árvore triste. Olhei também e estive quase a concordar. Agora felicito-me, porque não foi preciso. Lembro-me que a senhora ia vestida de preto. Talvez lhe tivesse morrido alguém. Às oliveiras daquele olival que passava lá fora é que eu tenho a certeza de que não faltava nada: nem sol, nem uma leve brisa, nem um fruto grado, prometedor. E perguntei para mim, ao descer do comboio:




- Porque maltratamos as oliveiras?


Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 263



15 de março de 2015

Grandeza do homem

Ilustração de Ančka Gošnik Godec


Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 58

14 de junho de 2014

À chegada dos dias grandes



Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada


Ilustrações de Marion Arbona 

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.

Ruy Belo, in Todos os Poemas

25 de maio de 2014

Um prato de sopa

Ilustração de Tomoko Suzuki

Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos

Ruy Belo, in Todos os Poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 205

17 de maio de 2014

À chegada dos dias grandes

Ilustração de Virpi Pekkalan
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.


                                                   Ruy Belo

23 de abril de 2014

Das coisas que competem aos poetas

Ilustração de Helen Dardik


Nas terras onde os sinos andam pelas ruas

há horas surdas sós e sem cuidados

há mar condicionado ao possível verão

e vendem-se manhãs e mães por três ideias

Nas terras onde a música é o fogo de artifício

a camioneta curva a carga sob os plátanos

e à sombra dos lacrimejantes carros

o gato dorme a trepadeira sobe

o soba grita nunca ninguém sabe

a erva cresce e as crianças morrem

O mar aceita chão a mão do sol

Que plural deplorável o da magna agência mogno

E nas tílias há riscos dos vestidos de retintas raparigas

e o dente resistente número quarenta cheira a Pepsodent



Ruy Belo, in Todos os poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 155

18 de abril de 2014

Pôr do sol na Boa Nova

Ilustração de Laimonas Smergelis




Mar alma na tarde morta
que cortas dedos na luz
abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus



Ruy Belo, in Todos os poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 70

4 de junho de 2013

E tudo era possível

Ilustração de Horacio Gatto

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy  Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.241

1 de junho de 2013

Algumas proposições com crianças

Ilustração de Cécile Bercé-Busson

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre

a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz


Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.209

A rua é das crianças


Ilustração de Kaatje Vermiere

Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projectam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.264

1 de dezembro de 2012

O valor do vento

Ilustração de Alain Bailhache
 
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo, in Todos os Poemas

28 de novembro de 2012

Violoncelo


Ilustração de Miharu Yokota



E haverá nos gestos que nos representam

a unidade de uma nota de violoncelo 

E onde quer que estejamos será sempre

um terraço a meia altura


 Ruy Belo, in Todos os Poemas

16 de setembro de 2012

Não sei nada

Ilustração de byggstudio.com

 
Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura. 

Ilustração de Bastin Marjolein

Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como não sei.

Ruy Belo, "Imagens vindas dos dias", in Todos os poemas, Assírio & Alvim

Na praia

Ilustração de Angela Morgan



Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?

Ruy Belo, "Verão", in Todos os Poemas, Assírio & Alvim