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19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94

21 de julho de 2015

Nada entre nós tem o nome da pressa

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas - 
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós


Ilustração de Casey O'Connell



o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

           Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 43

19 de julho de 2015

oh, se pudesses voltar

oh, se pudesses voltar, mostrava-te as sete luas que se vêem
da janela do meu quarto. E os sete sóis, se nele quisesses
passar mais de uma noite. Nada disto te revelei antes,
que eram segredos meus - e eu, aos segredos, guardo-os
até ser tarde [de mais] para contá-los.

 
Ilustração de Joanna Concejo


oh, se pudesses voltar, havia de levar-te a ver o jardim,
por trás da casa, onde há uma nespereira que é só minha
e a cuja sombra podíamos ler no verão, se o verão viesse
e tu quisesses passá-lo só comigo. E também a clarabóia,
no telhado, que tem um vidro a menos por onde, de vez
em quando, caem estrelas; e tão pequenas que se perdem nos olhos
de quem se põe assim, a olhá-las, sem saber de onde vêm -


dizem que são anjos que as lançam devagar para aquecer
as noites. Talvez também te mostrasse os anjos se voltasses.


                               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.77

11 de julho de 2015

Somos as pontas de uma mesma fita

Ilustração de Mariana Kalacheva

Somos as pontas de uma mesma fita
e acordamos atados de manhã num
nó que ainda demora a desfazer. Ao

 

levantar-me, arrasto-te comigo, mas
no resto da vida é ao contrário - e eu

nem me importo que me leves atrás
se o laço for contigo, e apertado. Mas,


quando calha, é mais comprida a fita; e
eu - inquieta, sem saber onde estás - fico
a contar os metros, aflita, e a magicar em
franzidos e embaraços. Eis senão quando


tu apareces amarrotado de cansaço e nos
meus braços logo te desfias. Vencido
o susto, passa-se a fita a ferro - para
se enredar de novo num nó cego que
de manhã vai ser um custo desatar.



 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 242

10 de julho de 2015

Deixei-te um beijo sobre a tua almofada


Ilustração de Mariana Kalacheva


Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele
das ondas. Visto-me às escuras — tão

mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e

escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.


 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.194

8 de julho de 2015

Talvez este amor estivesse escrito...

 Ilustração de Ruth Taylor


Esgotamos os desacordos
em livros pequenos: lermos
juntos substitui a cama e as
conversas. Talvez este amor

estivesse escrito e, por isso,
ao virar da página, haja
sempre uma mão do outro lado,
quente, apertada na nossa.



 
 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 241

7 de julho de 2015

Entraste numa tarde, por engano

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.



Ilustração de Mariana Kalacheva

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.



           Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 157

5 de julho de 2015

Se ainda não sabias...

Ilustração de Aurélie Blanz

Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:



se ainda não sabias, és muito bem-vindo.


 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 239

18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



17 de março de 2014

Olho-te e não me vês

Ilustração de Lucy Campbell


Olho-te e não me vês. A primavera vigia
a floração das malvas e o girassol retribui
os favores da luz. Eu sento-me onde acho

que vai estar a tua sombra. E, como a dor
que persegue a ferida, vejo-te quando passas,
mas vejo-te melhor quando não passas. Tu

não me vês; caminhas na geometria vã de
uma linha sem pontos; às vezes parece que
alguma coisa te detém e viras-te - talvez
então me chames dentro de ti, talvez até
me olhes. Mas não me vês.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 165

15 de março de 2014

Que é das palavras?

Ilustração de Marie Desbons



Que é das palavras? Como chamar

por quem as esconde se, sem elas,

nem o silêncio tem nome?


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 144

4 de março de 2014

Se partires, não me abraces


Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces -


 

Ilustrações de Carlotta Castelnovi

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira
, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.101

12 de fevereiro de 2014

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

Ilustração de Carlotta Castelnovi

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


       Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.97

9 de fevereiro de 2014

Nada temas...

Ilustração de Mihai Criste

(...)

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que 
adormeceres. Mas nada temas (...)


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.121

26 de janeiro de 2014

São tristes as aves

Ilustração de Julia Icenogle

São tristes as aves que viajam na
memória do vento, tristes os olhos
que se demoram no gargalo de um
poço. E eu sou triste de não saber

que nome te pôs a morte quando
ontem te deitou na sua cama, e te
soprou nos cabelos o seu hálito frio,

e te embalou às escuras com uma
canção de vidro em que as aves se
enamoravam das próprias sombras

e, procurando-se em vão nas águas
turvas de um poço, não sabiam que
apenas mergulhavam lentamente, muito
lentamente, na memória do vento.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 207

25 de janeiro de 2014

São horas de voltar

Ilustração de Camiluna


São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera

gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar

trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,

mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto



à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo

os livros, escondo as cartas, viro os retratos

para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,

sei que não voltas, e ouço dizer que as aves

partem sempre assim, subitamente. Outras virão



em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.




Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 75

24 de janeiro de 2014

Antes de um lugar há o seu nome

Ilustração de Olga Kvasha

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda

a viagem até ele, que é um outro lugar

mais descontínuo e inominável.


Lembro-me


do quadriculado verde das colinas,

do sol entretido pelos telhados ao longe,

dos rebanhos empurrados nos carreiros,

de um cão pequeno que se atreveu à estrada.



Íamos ou vínhamos?





Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 35

23 de janeiro de 2014

Outra voz


Ilustração de Christian Asuh


Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez

para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,

a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele

tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava

que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,

na arca das lãs que só voltaria a abrir no inverno.


Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas

que não voltaria a ouvir a voz dele

no espelho do seu quarto ― a outra voz.


Ilustração de Andrei Zadorine
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.

Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer

algo mais que o silêncio ― essa outra voz.


  
Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 29 

21 de janeiro de 2014

Tardávamos diante das palavras

Ilustração de autor desconhecido


Tardávamos diante das palavras, como se os olhos

fossem cegar sobre as páginas que não acabávamos

de ler só para fazer durar o engano, o livro, o tempo

de todas as leituras. Guardávamos silêncio



à cabeceira. E cruzávamos de noite os dedos

à procura da luz que emanasse de um seio, da onda

do cabelo sobre a orelha, dos ombros, da cintura,

do começo dos lábios. Normalmente, achávamos apenas

a sombra da roupa na curva dos joelhos, a penumbra

entre os nossos corpos quietos e deitados.


Ilustração de Evangelina Prieto

É nas linhas das mãos que os deuses escrevem

os mais belos romances. Nas nossas, porém, somente

elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho,

nem sequer literatura.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 63

23 de abril de 2012

Sonhos dos livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
Ilustração de Julia Humpfer
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio - nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros