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16 de junho de 2015

Morada

Ilustração de Tamypu
Sozinho na grande cama,
perdido nos seus frios corredores,
ouço, de quartos interiores,
a tua voz que me chama.

Do fundo da noite enorme
onde pouso a cabeça por fora
a tua voz de alguém acorda-me
como num sono insone.

Como se a tua voz agora
antigamente me chamasse
e tudo, menos a tua voz, faltasse
fora da minha memória.


Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa - uma antologia pessoal, Assírio&Alvim, 2012, 2ª ed., p. 47

4 de maio de 2015

Eterna juventude

Ilustração de Maria Lavezzi

A voz envelhece muito devagar, é por isso que as estrelas da rádio se aposentam tão tarde.

                     
                                                                 Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p.75 

10 de janeiro de 2015

Guitarra

Ilustração de Raija Nokkala



Na voz de oiro e de sombra da guitarra

Algo de mim a si próprio renuncia






Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 747

19 de março de 2014

Tudo é efémero

Ilustração de Ulrike Baier


Tudo é efémero:

ontem escutava a tua voz

hoje só o vento



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, 

Assírio&Alvim, 2013, p. 142

23 de janeiro de 2014

Outra voz


Ilustração de Christian Asuh


Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez

para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,

a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele

tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava

que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,

na arca das lãs que só voltaria a abrir no inverno.


Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas

que não voltaria a ouvir a voz dele

no espelho do seu quarto ― a outra voz.


Ilustração de Andrei Zadorine
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.

Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer

algo mais que o silêncio ― essa outra voz.


  
Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 29