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11 de julho de 2015

Somos as pontas de uma mesma fita

Ilustração de Mariana Kalacheva

Somos as pontas de uma mesma fita
e acordamos atados de manhã num
nó que ainda demora a desfazer. Ao

 

levantar-me, arrasto-te comigo, mas
no resto da vida é ao contrário - e eu

nem me importo que me leves atrás
se o laço for contigo, e apertado. Mas,


quando calha, é mais comprida a fita; e
eu - inquieta, sem saber onde estás - fico
a contar os metros, aflita, e a magicar em
franzidos e embaraços. Eis senão quando


tu apareces amarrotado de cansaço e nos
meus braços logo te desfias. Vencido
o susto, passa-se a fita a ferro - para
se enredar de novo num nó cego que
de manhã vai ser um custo desatar.



 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 242

5 de abril de 2015

Caminho da manhã


Ilustração de Laimonas Smergelis
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca.


Ilustração de Laimonas Smergelis

(...)

Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

8 de junho de 2014

Acordou a manhã

 Acordou a Manhã
P’ra dar
De beber aos pássaros…

O Sol pôs-se a pino
P´ra lhe doirar as asas…
A Noite veio
P’ra fechar
As pálpebras dos pássaros…
  
Ilustração de S. Eidrigevicius
De nada disto os pássaros souberam.
E todo o dia cantaram
Como se agradecessem…

                                                                           
Sebastião da Gama, in Estevas

26 de março de 2014

Meio da vida


Ilustração de Becky Kelly


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida



Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.408

9 de março de 2014

Manhã

 
Ilustração de Dennis Wojtkiewicz



Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.




Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 392

1 de janeiro de 2014

As flores

Ilustração de Marie Cardouat

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No tempo dividido, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 293

20 de julho de 2013

Manhã

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro                         

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro


Sophia de Mello Breyner, Andresen, in Livro Sexto

6 de junho de 2013

Alegoria

Ilustração de Susans Art Loft

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia a escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe a linha do infinito,
derrubando os muros da manhã.

Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 24

20 de agosto de 2012

Descobrimento

Ilustração de Vladimir Olenberg

Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas