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11 de julho de 2015

Somos as pontas de uma mesma fita

Ilustração de Mariana Kalacheva

Somos as pontas de uma mesma fita
e acordamos atados de manhã num
nó que ainda demora a desfazer. Ao

 

levantar-me, arrasto-te comigo, mas
no resto da vida é ao contrário - e eu

nem me importo que me leves atrás
se o laço for contigo, e apertado. Mas,


quando calha, é mais comprida a fita; e
eu - inquieta, sem saber onde estás - fico
a contar os metros, aflita, e a magicar em
franzidos e embaraços. Eis senão quando


tu apareces amarrotado de cansaço e nos
meus braços logo te desfias. Vencido
o susto, passa-se a fita a ferro - para
se enredar de novo num nó cego que
de manhã vai ser um custo desatar.



 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 242

23 de junho de 2014

Cansaço da escola

Ilustração de Gooroovoo

Jodoigne, 23 de Abril de 1975.


Estou fatigada. O trabalho da escola cansa-me. Não suporto mais as permanentes intromissões dos pais, que nunca sabem o que querem juntos. Estou com as crianças e penso no livro. Sinto a ausência de um mestre para as minhas constantes interrogações.


Alguém terá de vir.
Cristina veio passar alguns dias connosco, e trouxe-me um livro de Kierkegaard: Les Miettes Philosophiques.


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 51

1 de dezembro de 2013

Não deixes o cansaço instalar-se

Ilustração de Alice Tams

Não deixes o cansaço instalar-se 
Em vez disso
Silenciosamente
Como a um pássaro
Estende a mão ao milagre.


Hilde Domin  (1912 – 2006)