Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta os passos da cruz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta os passos da cruz. Mostrar todas as mensagens

24 de abril de 2013

Pura ficção?

Ilustração de Su Blackwell

Não confundas a vida com o teatro, dissera-me Rosa; e eu ouvia as mesmas palavras na boca da historiadora ao dizer-me que não devia confundir o que nasce da investigação histórica com o que realmente se passou, numa determinada época. A história do passado, somos nós que a fazemos, e não os seus protagonistas; e eu pensava nisto como se fosse uma aberração, pondo em causa todos os livros que lemos e por onde estudámos a evolução do mundo e das sociedades. Seria tudo uma pura ficção? Então, disse-lhe, a verdadeira história está nos romances, porque aí é onde o homem projecta a sua realidade, entre o que viveu e o que sonhou, sem qualquer preocupação de construir uma cena dominada pela verosimilhança que os acontecimentos conferem ao que se escreve.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 74

23 de abril de 2013

A força da palavra


Ilustração de Alexander Sulimov

O ser não existe a não ser quando se transforma em palavra. Imagina que desapareces; e que tudo aquilo que viveste e que disseste sobrevive apenas nalgumas memórias de gente que te conheceu; e finalmente, à medida que esses vão deixando de existir, a tua presença apaga-se, o teu nome, mesmo a tua identidade em fotografias de grupo onde, quando ninguém se lembrar de ti, vão perguntar, apontando para ti: Quem é esta? E depois passam a outro assunto, como se de facto nunca tivesses existido, simples sombra de um tempo que pensaste ter ajudado a construir, e que passou, para sempre, até ao fim de haver humanidade.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 43

O alter-ego


Em Os Passos da Cruz, também o narrador se funde com outra personagem masculina - Brás Teles, com quem Antónia Margarida de Castelo Branco foi casada antes de fugir para um convento, devido a maus tratos conjugais: 

Ilustração de Mike Worral


E surgiu-me uma dúvida: quem era eu? Seria esse que um dia decidira procurar o lugar onde vivera Antónia Margarida procurando uma resposta para os dramas de uma época em que o indivíduo pouco contava? Ou seria eu Brás Teles, que se apossara de mim próprio, e de quem me tornara um duplo? De facto, como acontece na maior parte dos romances, o narrador acaba por se confundir com o personagem, transferindo para dentro dele todo o seu universo.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 93

22 de abril de 2013

Perder-se...

Em pequenas estradas (...), basta uma distracção para que se perca o horizonte, e os passos nos levem para onde não se esperava ir. Eu, no entanto, gosto de me perder.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 17




Só aparentemente o narrador se perde.

Com efeito, Os Passos da Cruz, de Nuno Júdice, oferecem os passos da teoria à prática literária, em jogos de fusão da escrita com a realidade, interceção de vários planos da narrativa e de duas personagens femininas que funcionam como o alter-ego uma da outra - Rosa, por quem o narrador-personagem se apaixonara nos anos 60 do século XX, e Antónia Margarida de Castelo Branco, figura seiscentista que, qual fénix, renasce na memória de quem tenta conhecer detalhes, coadjuvado por uma historiadora.


Ilustrações de Mike Worral

Os Passos da Cruz é, pois, uma obra magistral que cruza planos narrativos, épocas e personagens, suspendendo o leitor e levando-o pelas páginas da intriga, confiante de que não será desapontado. E assim acontece ou não fora uma obra de Nuno Júdice. 

Maria Carla Crespo