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23 de abril de 2013

O alter-ego


Em Os Passos da Cruz, também o narrador se funde com outra personagem masculina - Brás Teles, com quem Antónia Margarida de Castelo Branco foi casada antes de fugir para um convento, devido a maus tratos conjugais: 

Ilustração de Mike Worral


E surgiu-me uma dúvida: quem era eu? Seria esse que um dia decidira procurar o lugar onde vivera Antónia Margarida procurando uma resposta para os dramas de uma época em que o indivíduo pouco contava? Ou seria eu Brás Teles, que se apossara de mim próprio, e de quem me tornara um duplo? De facto, como acontece na maior parte dos romances, o narrador acaba por se confundir com o personagem, transferindo para dentro dele todo o seu universo.

Nuno Júdice, in Os Passos da Cruz (2009), D, Quixote, 1ª ed., p. 93

8 de março de 2013

Sabes quem sou?

Ilustração de Fernando Falcone


Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.  
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

                                 Fernando Pessoa

12 de novembro de 2012

Viver é ser outro


Ilustração de Asako Eguchi

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

                                                                             Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

7 de outubro de 2012

Autor ou fingidor?

Este Ricardo Reis não é o poeta, é apenas um hóspede de hotel que, ao sair do quarto, encontra uma folha de papel com verso e meio escritos...

Ilustração de Mike Warroll

E as pessoas nem sonham que quem acaba uma coisa nunca é aquele que a começou, mesmo que ambos tenham um nome igual, que isso só é que se mantém constante, nada mais.

José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis