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23 de junho de 2015

Classificar o inclassificável

Ilustração de Stephanie Graegin

Os classificadores de coisas, que são aqueles homens de ciência cuja ciência é só classificar, ignoram, em geral, que o classificável é infinito e portanto se não pode classificar. Mas o em que vai meu pasmo é que ignorem a existência de classificáveis incógnitos, coisas da alma e da consciência que estão nos interstícios do conhecimento.
                
                                    
                       Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.341


21 de junho de 2015

Instinto



Van Gogh

...o sagrado instinto de não ter teorias...


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.248

18 de novembro de 2012

Desassossego

Ilustração de Francesca Dafne Vignana
 
 
 
 
Não escrevo para agradar nem para desagradar. Escrevo para desassossegar. É um título que gostaria de ter inventado e foi inventado por Fernando Pessoa - Livro do Desassossego. Gostaria que todos os meus livros fossem considerados livros para o desassossego.

José Saramago

14 de novembro de 2012

Desvegetar


Ilustração de Alice Vilhena


Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela.

Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre: acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É tudo, e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é nada, vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por dentro como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou. 

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

13 de novembro de 2012

Deserto


Ilustração de Ford Smith
 
São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

12 de novembro de 2012

Viver é ser outro


Ilustração de Asako Eguchi

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

                                                                             Bernardo Soares, in Livro do Desassossego