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7 de janeiro de 2014

O silêncio mais profundo

Ilustração de Mike Worral


Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p.86

5 de janeiro de 2014

Reis Magos ou Menino Jesus?

Ilustração de Carolina Aloy
Nesse tempo os Reis Magos ainda não existiam (ou sou eu que não me lembro deles) nem havia o costume de armar presépios com a vaca, o burro e o resto da companhia. Pelo menos na nossa casa. Deixava-se à noite o sapato ("o sapatinho") na chaminé, ao lado dos fogareiros de petróleo, e na manhã seguinte ia-se ver o que o Menino Jesus lá teria deixado. Sim, naquele tempo era o Menino Jesus quem descia pela chaminé, não ficava deitado nas palhinhas, de umbigo ao léu, à espera de que os pastores lhe levassem o leite e o queijo, porque disto, sim iria precisar para viver, não do ouro-incenso-e-mirra dos magos, que, como se sabe, só lhe trouxeram amargos de boca.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p. 114

4 de dezembro de 2013

Pequenas memórias

Ilustração de Madalena Matoso

Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. 

Ilustração de Madalena Matoso

Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.

Ilustração de Csil Cb
Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...


José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp. 63-65

3 de dezembro de 2013

Balão ou mundo?


Ilustração de Anna Lisk
Um ou outro domingo, pela tarde, as mulheres desciam à Baixa para ver as montras. Geralmente iam por seu pé, alguma vez tomariam o carro eléctrico, que era o pior que me podia suceder nessa idade, porque não tardava a enjoar com o cheiro lá de dentro, uma atmosfera requentada, quase fétida, que me revolvia o estômago e em poucos minutos me punha a vomitar. Neste particular fui uma criança delicada. Com a passagem do tempo esta intolerância olfactiva (não sei que outro nome lhe poderei dar) foi diminuindo, mas o certo é que, durante anos, bastava-me entrar num carro eléctrico para sentir a cabeça a andar à roda. (...) Não me lembro das montras, nem é para falar delas que estou aqui, assuntos mais sérios me ocupam neste momento. Junto a uma das portas dos Armazéns Grandella havia um homem a vender balões, e, fosse por tê-lo eu pedido (do que duvido muito, porque se quem espera que se lhe dê é que se arrisca a pedir), fosse porque minha mãe tivesse querido, excepcionalmente, fazer-me um carinho público, um daqueles balões passou às minhas mãos. Não me lembro se ele era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco simplesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida.


Ilustração de Csil Cb


Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.

                                          José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp.76-77

26 de julho de 2012

Os avós

Ilustração de Courtney Autumn Martin

Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era Inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatro bacorinhos  que certamente julgariam estar no reino dos céus...

José Saramago, in As pequenas memórias

16 de julho de 2012

O avô

Ilustração de Robert Dunn
 O homem que se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso.


José Saramago, in As pequenas memórias

9 de dezembro de 2011

Pesca literária


A minha posição de leitora é a de adesão a As Pequenas Memórias, tal como o narrador se extasiou com um peixe de água doce que não chegou a pescar. Dedicou-lhe, porém, o silêncio, a espera, a contemplação que o tornaram único no mundo, como o principezinho para a raposa em Saint-Exupéry: “Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci. (…) De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, [o peixe] tinha a minha marca, era meu” (p. 86).

Mulher ou peixe
 Ilustração de Jaroslav Betehtin
Também o livro As Pequenas Memórias passou a fazer parte da minha vida de leitora. É meu. Ao contrário de “aquele barbo” do narrador, pesquei-o!

Uma questão de literatura

Aprecie-se ou não José Saramago, o autor/escritor/homem, ou alguma temática ou estilo das suas obras, certo é que estamos perante páginas de literatura em As Pequenas Memórias.
La noche pasa… la lectura queda
(ilustração de Violetno)

A propriedade lexical, que consiste em nomear cada objeto ou realidade com um vocábulo preciso, compagina-se com a novidade e liberdade semânticas que o levam a associar com criatividade uma realidade já existente a outra que lhe ocorre, adaptando, por exemplo, expressões idiomáticas em “Também inutilmente se chorará o azeite derramado” (numa associação fonética de “leite” com “azeite”, remetendo para o contexto descrito dos “velhos olivais” (p.15) ou em “a minha memória de infante” (p.33), num processo de paronímia com “memória de elefante”, criando assim, pelo trocadilho, uma antítese, pois a sua memória de criança não lhe permitia alcançar ainda a prodigiosa recordação do tempo em que teriam começado as desavenças familiares.

A maestria estilística manifesta-se tão simplesmente na tripla adjetivação que revela como num balão (“aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida”) pode caber o universo onírico, fantástico de uma criança, ainda que gorado quando se esvazia (“Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo” (p.77)) ou ainda no tom coloquial que mantém com o leitor, aproximando-o das suas vivências ou retificando as suas memórias, precisando factos ou a sua sucessão: “Como acaba de se ver, não andava equivocado quando escrevi que havíamos vivido duas vezes na Rua Carrilho Videira, mas já foi o engano gravíssimo quando (…) acrescentei que estava na idade de onze anos quando do episódio com a Domitília. Nada disso. Na verdade, eu não teria mais que seis, e ela andaria pelos oito” (p.119).

Esta familiaridade com o leitor cria, de facto, por momentos, a sensação de que o narrador (ou mesmo o autor?) se nos dirige, como se nos respeitasse a ponto de retificar a informação biográfica que vai tecendo entre as páginas. Mas não será a verosimilhança tão somente mais um traço da magnitude literária da narrativa? Pouco importa que o autor de Todos os Nomes tenha tido estas ou aquelas (inúmeras) aventuras amorosas. O certo é que nos deixa presos à escrita quais bacorinhos na cama dos avós. 

Mª Carla Crespo

18 de novembro de 2011

Com um lápis na mão

Foi com um lápis na mão que li recentemente As Pequenas Memórias, de José Saramago. Esse pequeno hábito permitiu-me registar o prazer da leitura, que o mesmo é dizer o prazer do encontro com a escrita apurada, com o detalhe, com a análise intuitiva e instintiva que me habituei a fazer. Também as anotações de caráter pessoal têm o seu lugar a lápis, nas margens do livro. 

Écriture, de Cécile Bercé Busson

Aqui fica o registo de um desses momentos, neste caso  de identificação com o narrador autodiegético (protagonista da ação) na sua aversão à raça canina.

A diferença está em eu não identificar a causa com nenhum destrato do animal nem nunca ter tido a experiência (oxalá sempre seja poupada a tal) de saber que algum cão se lembrará de me “saltar ao gasnete”.

O que, sim, acontece é a minha adrenalina, na presença ou na mera proximidade de tal ser da natureza, ser apercebida pelo suposto atacante, que deve ficar com medo de que eu o morda e normalmente se afasta…Nesse caso, o cão deve supor, como o narrador, que eu seria capaz de tal e, cruzando-se com os demais da raça, deve ripostar a sua contenção dizendo-lhes: “Sabia, não me perguntem como, mas sabia” (p. 25) que ela me iria atacar…
Ilustração de Agnès Boulloche

13 de novembro de 2011

Uma cereja traz outra cereja

"Uma cereja traz outra cereja, um cavalo trouxe um tio, um tio irá trazer….” (p.28).

As conversas são como cerejas é o adágio que subjaz a esta afirmação do narrador, em tom coloquial com o leitor, tom que percorre As Pequenas Memórias, como quem conta histórias vividas ou recordadas (“…às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente…” pp. 63-64). E assim o leitor é conduzido à pobreza extrema do narrador, que dormia no chão, na companhia de baratas e partilhava um prato de sopa com a mãe, que por sua vez penhorava os cobertores no verão e os levantava quando o frio apertava; às proezas das suas venturas e desventuras amorosas e das amizades e crueldade de colegas de escola; à infância sofrida pela doença e morte do irmão Francisco; à precocidade na leitura e ao seu fascínio pela escrita quando os seus “dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas” (p.64), numa ardósia.

 Autodisciplinando-se por vezes: “Voltemos ao fio do relato” (p. 102), o narrador conduz-nos por lugares e condições menos visitados pelos leitores de Saramago. Num estilo que o distancia da densidade psicológica das personagens de Memorial do Convento, não lhe falta contudo uma pitada de ironia, como quando relata que em casa dos vizinhos Barata “não havia livros, um só havia” de cujas histórias não acreditava fazerem “grande caso, se é que algum fizeram” e que a vizinha Conceição, “…dona desta jóia literária absoluta…” guardava A Toutinegra do Moinho “…como um tesouro numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, com cheiro a naftalina” (p.99).

Talvez menos frequente hoje este cenário, quem dera que esta crítica social se já não aplicasse atualmente…

Mª Carla Crespo

10 de novembro de 2011