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31 de maio de 2015

Livro de água

Claude Monet, Nenúfares

Fecho as páginas da noite. E
um livro de luz fica-me nas mãos,
queimando-me os dedos e os olhos
com o seu quente fulgor.

Ponho esse livro numa estante
lacustre. As suas folhas cobrem rãs
e nenúfares; e a música da água
inunda-o, apagando o seu fogo.

Ninguém sabe o que está nesse
livro; que obscuras frases o enchem
de inquietação; que luminosas
conclusões o libertam de sombra.

Ilustração de Ančka Gošnik Godec

Busco o enigma do seu título
- exíguo retrato de um rosto
passado, em cuo rasto me perco,
engano de rumo nas entranhas

do nome.

                
                                   Nuno Júdice, in O fruto da gramática, D. Quixote, 2015, 2ª ed., p. 91


11 de janeiro de 2015

Oásis

Ilustração de Richolly Rosazza


Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu – o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra


Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 643

20 de outubro de 2014

Dois mundos

Ilustração de Regina Lukk-Toompere



Repara, são dois mundos:

Não é possível atirar água

à matemática.




Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 73

22 de agosto de 2014

Veneza

Ilustração de Sernur Isik



Que música serias

se não fosses água?




Eugénio de Andrade, in Escrita da terra


Ilustração de Pascal Campion

7 de janeiro de 2014

O silêncio mais profundo

Ilustração de Mike Worral


Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p.86

27 de maio de 2013

A água da paróquia

Em Santarcangelo ao poço da Paróquia já não vai beber ninguém. Era a água benta que deitavam na cabeça das crianças para as baptizar e lavava as mãos de quem as metia dentro da pia.

E entretanto continuavam a andar para baixo e para cima os baldes da gente que morava ali à volta.

Ilustração de Nicolas Gouny

Depois puxava-a para cima um camponês para regar as alcachofras, até que fecharam o poço com uma chapa e na borda puseram uma placa a dizer assim: «Cá de baixo a água da Paróquia olha para o alto».


Tonino Guerra, in O Livro das Igrejas Abandonadas

28 de abril de 2013

7 de julho de 2012

Águas de Pessoa e Óscar Wilde

Ilustração de Gabriel Pacheco
Ilustração de Sophie Casson
...só as frases de espírito nos

dão o espírito das águas, que o pessoa detestava

porque não consumia água, e o wilde também

porque não tomava banho...

Nuno Júdice, in "De profundis"