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26 de julho de 2012

Os avós

Ilustração de Courtney Autumn Martin

Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era Inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatro bacorinhos  que certamente julgariam estar no reino dos céus...

José Saramago, in As pequenas memórias

9 de dezembro de 2011

Uma questão de literatura

Aprecie-se ou não José Saramago, o autor/escritor/homem, ou alguma temática ou estilo das suas obras, certo é que estamos perante páginas de literatura em As Pequenas Memórias.
La noche pasa… la lectura queda
(ilustração de Violetno)

A propriedade lexical, que consiste em nomear cada objeto ou realidade com um vocábulo preciso, compagina-se com a novidade e liberdade semânticas que o levam a associar com criatividade uma realidade já existente a outra que lhe ocorre, adaptando, por exemplo, expressões idiomáticas em “Também inutilmente se chorará o azeite derramado” (numa associação fonética de “leite” com “azeite”, remetendo para o contexto descrito dos “velhos olivais” (p.15) ou em “a minha memória de infante” (p.33), num processo de paronímia com “memória de elefante”, criando assim, pelo trocadilho, uma antítese, pois a sua memória de criança não lhe permitia alcançar ainda a prodigiosa recordação do tempo em que teriam começado as desavenças familiares.

A maestria estilística manifesta-se tão simplesmente na tripla adjetivação que revela como num balão (“aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida”) pode caber o universo onírico, fantástico de uma criança, ainda que gorado quando se esvazia (“Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo” (p.77)) ou ainda no tom coloquial que mantém com o leitor, aproximando-o das suas vivências ou retificando as suas memórias, precisando factos ou a sua sucessão: “Como acaba de se ver, não andava equivocado quando escrevi que havíamos vivido duas vezes na Rua Carrilho Videira, mas já foi o engano gravíssimo quando (…) acrescentei que estava na idade de onze anos quando do episódio com a Domitília. Nada disso. Na verdade, eu não teria mais que seis, e ela andaria pelos oito” (p.119).

Esta familiaridade com o leitor cria, de facto, por momentos, a sensação de que o narrador (ou mesmo o autor?) se nos dirige, como se nos respeitasse a ponto de retificar a informação biográfica que vai tecendo entre as páginas. Mas não será a verosimilhança tão somente mais um traço da magnitude literária da narrativa? Pouco importa que o autor de Todos os Nomes tenha tido estas ou aquelas (inúmeras) aventuras amorosas. O certo é que nos deixa presos à escrita quais bacorinhos na cama dos avós. 

Mª Carla Crespo