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19 de setembro de 2013

Os novos Maias, por José Luís Peixoto

Em Os novos Maias, editado pelo jornal Expresso (1ª parte), o prefácio,  intitulado "Profecias d' Os Maias", é uma clara e bastante útil análise das personagens dos episódios da vida romântica. Espelha de modo fidedigno os temas e a crítica social da obra magistral queirosiana, o que a torna tão atual. É um bom retrato das personagens-tipo, do seu significado e da sua intemporalidade.


Ilustração de Saja, Sabine Jeannot
O texto de José Luís Peixoto, que retomou o romance desde o último episódio, com Carlos da Maia e João da Ega a correrem para apanharem "o americano", revela que o autor conhece bem o universo da obra que o inspirou e a relação entre estas duas personagens. As descrições são vivas, polvilhadas de humor, e Carlos, Ega e Dâmaso Salcede readquiriram a sua densidade psicológica. Com mais ou menos surpresa, a diegese prossegue, sob a curiosidade do leitor, até que este tropeça em anacronismos. Em "Apesar da pressa, não caminharam demasiado rápido",  a substituição do advérbio "depressa" pelo adjetivo "rápido" denuncia a linguagem do século XXI (ou mesmo de finais do século XX). 

Ilustração de David de Ramon

Porém, o maior sobressalto do leitor surge quando o silêncio de 1900 é "interrompido pela estridência de uma mensagem de telemóvel". Em 1900? Quando o propósito da narrativa é fixá-la entre 1887 e 1910, como é anunciado na "Nota prévia" da edição do jornal Expresso? É de se lhe tirar o chapéu, José Luís Peixoto!





19 de agosto de 2013

Eu me perdi

Ilustração de Jean-Baptiste Monge

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

17 de setembro de 2012

A verruga

Ilustração de Anna Burighel


Estava eu sentado lá em casa, quando ouvi a minha tia dizer «uff!».
Suspeitei logo que havia coisa. Fui ver. Tinha-lhe nascido uma verruga na orelha. Não me pareceu normal.
Procurei imediatamente o meu tio, que é brigadeiro.
-Vamos falar com o ministro - disse o meu tio.
Fomos.
O ministro, em princípio, não quis acreditar. Não podia ser, aquilo não era normal. Claro que não era normal mas eu tinha visto, e foi o que lhe disse.
-Nesse caso, o melhor será fazer como se não soubéssemos de nada - propôs o ministro. - O senhor já pensou o que isto pode causar? - continuou, ansioso. - Começam por aí a inquirir, a verruga complica-se, os anarquistas, sempre prontos para a insídia, aproveitam o momento, a greve surge, as coisas atrapalham-se, intervenção das Potências, a guerra, que sei eu? Não, não digamos a ninguém. Guardemos segredo, o Estado o compensará.
Olhei para o meu tio, brigadeiro como já tive oportunidade de fazer notar, e vi que realmente o caso parecia grave. No entanto, duvidando um pouco, inquiri ao ministro:
- A coisa é assim tão importante, Excelência?
- Mais que isso, meu amigo, mais que isso. A pátria está em tremendo perigo.
Senti que era a hora da decisão.
- Se a pátria periga, não desejo a mínima recompensa. Comigo é assim. Pela pátria, tudo. Calarei.
Calámos.
Dias depois a minha tia recebia uma carta escrita pelo próprio Imperador. Agradecendo. Louvando.
A carta ainda lá está. A verruga também.
Quanto a mim, continuo sentado lá em casa. Calado.

Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin Tonic

19 de fevereiro de 2012

A opulência rota


Ilustração de Jacqui Faye

Elegância necessita-se, a aparência é essencial e criar uma imagem credível, que fica bem, que impressiona, que tem impacto e nos faz passar por pessoas admiráveis, com dinheiro, bem falantes e bem posicionadas socialmente é o objetivo da farsa social em que nos envolvemos.


Ilustração de Carl Cneut




Em cada época, porém, ressurgem vozes que gritam; espreitam os bastidores da opulência visível e desvendam sótãos degradados; voltam do avesso os fatos dos fidalgos e descobrem os bolsos rotos; coscuvilham os dividendos dos milionários e encontram onzeneiros usurários, a viver à custa do povo, do seu suor e miséria.

Ilustração de Sonya Wimmer


O teatro vicentino, tal como as suas personagens-tipo, é universal e intemporal. O cómico serve a crítica social. A fazer rir, ridiculariza-se e moraliza-se a sociedade: a pelintrice, as conveniências, a preguiça apaixonada por um marido rico, a fidalguia com os sapatos rotos e tantos e tantos outros tipos sociais e psicológicos a saírem de baixo do guarda-roupa. 

Eis uma síntese esquemática da crítica vicentina. Qualquer transposição para a atualidade é um exercício de lucidez!


18 de fevereiro de 2012

Mestre Gil e o Carnaval



Carnaval, de Simona Valentino

Gil Vicente foi mestre e ímpar na crítica a partir do ridículo e do burlesco. Provocando o riso, criticava as práticas, os hábitos, a moral vigente, os usos e costumes: "ridendo castigat mores".

Ler ou reler Mestre Gil é torná-lo atual neste Carnaval. Os paralelismos podem surpreender-nos!...



13 de novembro de 2011

Uma cereja traz outra cereja

"Uma cereja traz outra cereja, um cavalo trouxe um tio, um tio irá trazer….” (p.28).

As conversas são como cerejas é o adágio que subjaz a esta afirmação do narrador, em tom coloquial com o leitor, tom que percorre As Pequenas Memórias, como quem conta histórias vividas ou recordadas (“…às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente…” pp. 63-64). E assim o leitor é conduzido à pobreza extrema do narrador, que dormia no chão, na companhia de baratas e partilhava um prato de sopa com a mãe, que por sua vez penhorava os cobertores no verão e os levantava quando o frio apertava; às proezas das suas venturas e desventuras amorosas e das amizades e crueldade de colegas de escola; à infância sofrida pela doença e morte do irmão Francisco; à precocidade na leitura e ao seu fascínio pela escrita quando os seus “dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas” (p.64), numa ardósia.

 Autodisciplinando-se por vezes: “Voltemos ao fio do relato” (p. 102), o narrador conduz-nos por lugares e condições menos visitados pelos leitores de Saramago. Num estilo que o distancia da densidade psicológica das personagens de Memorial do Convento, não lhe falta contudo uma pitada de ironia, como quando relata que em casa dos vizinhos Barata “não havia livros, um só havia” de cujas histórias não acreditava fazerem “grande caso, se é que algum fizeram” e que a vizinha Conceição, “…dona desta jóia literária absoluta…” guardava A Toutinegra do Moinho “…como um tesouro numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, com cheiro a naftalina” (p.99).

Talvez menos frequente hoje este cenário, quem dera que esta crítica social se já não aplicasse atualmente…

Mª Carla Crespo

10 de novembro de 2011