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22 de setembro de 2015

Amor e protocolo

- Isto é o Beija-mão? - sussurrou Sissi para Francisco enquanto as nobres entravam, com as cabeças enfeitadas com plumas e fruta, e com expressões de avaliação e escrutínio no rosto. - Ou é o Desfile dos Corações Partidos?

Ilustração de Masha Kurbatova
 
Francisco riu-se da piada, mas Sissi reparou que a sogra fez uma careta. Não estava escrito em parte nenhuma do guia do protocolo que era permitido aos recém-casados sussurrar. E não era, certamente, permitido soltar risinhos no dia do casamento.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora, p. 184

10 de janeiro de 2014

Humor de Mandela

Ilustração de Eric Comstock

Sabe, eu gosto que as pessoas estejam descontraídas pois, mesmo quando se está a discutir um assunto sério, a descontracção é muito importante porque nos encoraja a pensar; é por isso que gosto de dizer piadas, mesmo quando estou a examinar situações difíceis. Porque, quando as pessoas estão descontraídas, elas conseguem pensar como deve ser.


The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 199

27 de junho de 2013

Quando todos se chamam Pepe


Na aldeia espanhola Consolación, todos os homens se chamam Pepe: o pastor, o eletricista, o pintor..., o que se torna confuso quando um deles morre e não se percebe a quem passar o obituário. 

Ilustração de Paula Pertile

Os consolados (habitantes de Consolación) rejubilam com as tradições e festividades de verão na povoação: a melonada, a vacada, a porcaria e a ronda, designações tão peculiares quanto as realidades a que aludem:


Ilustração de Jimmy Liao
"A maior festividade era a melonada, que acontecia na primeira lua nova de agosto. Os telhados das casas enchiam-se de melões demasiado maduros, que ficavam dias ao sol à espera da grande noite. (...) ...os populares trepavam aos telhados das casas e bombardeavam-se mutuamente com os melões numa guerra sem quartel, por entre risos e gargalhadas. A festa terminava sem vencidos nem vencedores, quando se esgotavam os melões e o vinho. Cansados, melosos e felizes, os habitantes recolhiam a casa altas horas da madrugada e dormiam um dia inteiro para cozer a bebedeira."

Miguel Miranda (2013), in  A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 13


Estas são algumas evocações de Perfecto Cuadrado, personagem principal que descola da realidade - uma viagem de táxi por Londres - e se deixa conduzir pelas vivências da aldeia e dos tempos de adolescente, recordando a sua ida ao confessionário pedir conselhos ao padre para a sua iniciação sexual.

Ilustração de Akira Kusaka 

Uma viagem pelo surreal da mente e da aldeia de Perfecto Cuadrado, das suas paixões e evocações...A paixão de K, de Miguel Miranda...


Mª Carla Crespo



Escrever para viajar

Escrever para viajar, viagem sem pagar bilhete, é o lema do médico portuense Miguel Miranda,  que marcou presença no Bibliotecando em Tomar 2013, no princípio de maio.

Ilustração de Ethel Spowers

Partindo do real, ainda que com as luvas e as pinças a que a deontologia o obriga, ocorre-lhe basear-se numa paciente, matá-la na primeira página e prosseguir a narrativa. 

A viagem e a literatura são também humor, riso, subversão, morte, mistério, policiais – mostrou-o este autor de diversas obras insólitas como O estranho caso do cadáver sorridente (Prémio Caminho de Literatura Policial, 1997) - a partir da sua doente inglesa qual boneca de porcelana com lábios pintados -; Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso – policial humorístico sobre o que acontece aos chineses quando morrem -; A paixão de K – sobre o quadrilátero amizade, amor, paixão e caos, que tem no centro as paixões de Perfecto Cuadrado, protagonista da ação; e Todas as cores do vento – reflexo de uma viagem à Palestina em que um gato é a única testemunha do choque civilizacional com Israel.

Mª Carla  Crespo

17 de setembro de 2012

A verruga

Ilustração de Anna Burighel


Estava eu sentado lá em casa, quando ouvi a minha tia dizer «uff!».
Suspeitei logo que havia coisa. Fui ver. Tinha-lhe nascido uma verruga na orelha. Não me pareceu normal.
Procurei imediatamente o meu tio, que é brigadeiro.
-Vamos falar com o ministro - disse o meu tio.
Fomos.
O ministro, em princípio, não quis acreditar. Não podia ser, aquilo não era normal. Claro que não era normal mas eu tinha visto, e foi o que lhe disse.
-Nesse caso, o melhor será fazer como se não soubéssemos de nada - propôs o ministro. - O senhor já pensou o que isto pode causar? - continuou, ansioso. - Começam por aí a inquirir, a verruga complica-se, os anarquistas, sempre prontos para a insídia, aproveitam o momento, a greve surge, as coisas atrapalham-se, intervenção das Potências, a guerra, que sei eu? Não, não digamos a ninguém. Guardemos segredo, o Estado o compensará.
Olhei para o meu tio, brigadeiro como já tive oportunidade de fazer notar, e vi que realmente o caso parecia grave. No entanto, duvidando um pouco, inquiri ao ministro:
- A coisa é assim tão importante, Excelência?
- Mais que isso, meu amigo, mais que isso. A pátria está em tremendo perigo.
Senti que era a hora da decisão.
- Se a pátria periga, não desejo a mínima recompensa. Comigo é assim. Pela pátria, tudo. Calarei.
Calámos.
Dias depois a minha tia recebia uma carta escrita pelo próprio Imperador. Agradecendo. Louvando.
A carta ainda lá está. A verruga também.
Quanto a mim, continuo sentado lá em casa. Calado.

Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin Tonic