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8 de janeiro de 2014

Filosofia do amor

Ilustração de Mariana Kalacheva


Enquanto esperas que te dêem o troco, 
tomo nota do teu perfil sob a cortina
dos cabelos recortados na linha em que testa
e sobrancelhas se juntam, deixando apenas
um fragmento de pele por entre uma 
breve abertura da franja. Aí,
nesse caminho entre o balcão e a mesa,
trazendo o tabuleiro em que pousaste
o copo e a bebida, atravessas a fronteira
entre o espaço de um desenho abstracto,
que comecei no caderno da minha cabeça,
e a realidade de um fim de tarde que me 
Ilustração de Suzanne Carpenter
fez pensar na definição filosófica
do amor como pura disjunção, ou seja,
essa dissociação que os filósofos fazem
da unidade dos amantes, o que 
os leva a considerar que tudo nasce
da diferença, da separação
entre um e o outro. Mas enquanto bebias
o sumo, sentia-o correr na minha garganta,
como se a vida fosse uma prova do
contrário do que dizem os filósofos, pelo
menos neste preciso ponto em que
nos sentimos um como o outro.

  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 24

4 de janeiro de 2014

Proposta

Ilustração de Luís Silva

Há um certo traço de exactidão
nos adjectivos que procuro com
o aparo da palavra. A tinta fixa
o perfil do rosto com um som
de vogais mais claras, e é como se
ouvisse o riso que se solta da
boca ao ouvir a expressão desta
ideia. Mas também uso a régua
do verso para que a imagem fique
a direito na página, e nenhum risco
perturbe o desenho. O papel está
no fim, o edifício, o poema, ou
esse objecto artesanal que sai
perfeito das mãos do oleiro, é
afiado pela consciência de
que só o que é exacto sobrevive
no ouvido e canta, com a lentidão
com que se faz o amor, a concepção
da beleza que aqui permanece.


  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 80

3 de janeiro de 2014

A manhã do poema

Ilustração de Marie Cardouat 


Nasceu de uma colheita de espumas azuis, e 
encho a cesta do horizonte com as espigas maduras
do seu coral submerso. Como as asas decepadas
das grandes aves que se ferem numa combustão
de nuvens, as palavras caem no chão da estrofe
para que as separe, e junte as que conservaram
o sopro húmido da tua voz ao som das foices
que avançam contra o sol, desbastando a folhagem
da memória. Em vez de correr contra o tempo,
separo de entre esses ramos de imagens aquelas que
me ditaram os versos mais obscuros, a luz
de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,
e um reflexo de madrugada na face liberta
de uma lenta sombra. E carrego essa cesta
como se regressasse de uma vindima de emoções,
seguindo o ritmo da frase que se escreve
na interrupção das vagas, e o vento derramou
no ouvido dos amantes.


                       Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 72

5 de dezembro de 2013

A perversão de Narciso

Ilustração de Sophie Leta



Decidira que o amor fazia parte da vida,
ao contrário do que pensara. Olhava
para o espelho e recusava o que via,
correndo para a rua em busca de outros
rostos mais belos: os da jovem que passou
à sua frente e o olhou de relance, inquieta
ao adivinhar o seu desejo; ou o dessa que
alisava os cabelos com as mãos, como se
estivesse a acariciar-se, e os seus olhos
perdiam-se na fronteira de um sonho
acordado. Queria dizer-lhes que as amava,
e que deixara para trás de si a sua imagem,
e a obsessão de se ver outro para se possuir até
à última esfera da loucura. E elas olhavam-no,
pedindo-lhe que se aproximasse. Mas
ele continuava parado como se nem sequer
as visse. Então, cansadas de esperar, partiam,
deixando-o entregue à solidão, e
ao inútil desejo de si próprio.


                          
                                 Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 33

2 de dezembro de 2013

A página branca

Ilustração de Ophelia Redpath

Havia uma vez, naquela cidade de província
onde joguei bilhar no intervalo de ver chegarem
e partirem as traineiras, uma jovem mulher
que se sentava na mesa mais triste do café,
e olhava em frente, sem que os seus olhos
mudassem de expressão. Todos os dias era 
assim, e dela só fiquei a saber que ninguém
a conhecia. Na mesa, o mesmo livro com o mesmo
marcador que nunca saía da mesma página,
e que ela nunca abria como se não quisesse saber
como a história acabava. Naquele café, tiraram
o bilhar; naquela cidade já não há traineiras
a chegar e a partir; mas quando olho para
a mesa do canto onde a jovem mulher se
sentava, penso sempre na história que ficou
a meio, sem que eu saiba como acabou.

Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 32